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Escrevendo sério, acho

Era 1945, eu estava carregando um pacote com 5 quilos de açúcar, no estribo de um bonde em São Paulo, um caminhão desgovernado “varreu” …

Era 1945, eu estava carregando um pacote com 5 quilos de açúcar, no estribo de um bonde em São Paulo, um caminhão desgovernado “varreu” o estribo, morreram 11 passageiros e uns,  muito feridos, não sei qual o destino deles. Eu era o último no estribo, consegui saltar e me salvar. O açúcar, só parcialmente. 

Soldados brasileiros – os pracinhas – lutavam nos campos da Itália, faltou açúcar no país e a canalha local promoveu o mercado negro do produto. O açúcar que eu carregava havia sido comprado por meu pai a um preço extorsivo.

Então, se o resultado do plebiscito que vem aí for um “sim à vida”, conforme a propaganda que adotou um slogan mais apropriado para uma campanha contra o aborto ou contra a eutanásia, o preço das armas vai multiplicar-se, é claro, pois será comprado como contrabando ou no mercado negro. Não sei se os que usam ou pretendem usar armas já estão fazendo estoques, mas sei que como não é uma massa de gente, isso não mudará o resultado do referendo.

No ano de 1946, o então presidente Dutra, atendendo ao pedido da mulher Carmela que, por sua vez atendia a um pedido do cardeal, assinou o decreto proibindo os jogos de azar. Assinou junto a criação da maior rede de corrupção deste país e não existe nenhuma unidade federativa na qual o jogo do bicho seja reprimido. A propina era tão grande que se pagava 23 vezes o valor da aposta a quem acertasse o bicho sorteado e hoje paga-se 18. Essa diferença de quase 20% é a taxa da corrupção. Eu, pessoalmente, em 1963, fui à Praia de Cassino, na cidade de Rio Grande, e, junto com um fotógrafo, fiz uma matéria publicada nas duas páginas centrais da Última Hora gaúcha, o que obrigou o governo do Estado mandar que a polícia fechasse o cassino. Temporariamente, é claro. No caso, só quero esclarecer que a mão que assina a proibição não é a mesma que reprime o ilícito.

Outro lado da mesma questão, dramático, é que a imprevidência gera tragédias domésticas, com não poucos incidentes fatais. Há, também, homicídios incidentais, típicos de uma perda momentânea da razão, quando o porte de arma gera a fatalidade. Foi assim, por exemplo, com o pintor Iberê Camargo que, interferindo numa rua de Botafogo, Rio, numa discussão doméstica, acabou assassinando o cabeça do casal. Transposição moderna do mesmo acaso que fez de Édipo o assassino do próprio pai. 

O que me assusta mesmo, nesse plebiscito, refere-se ao lado econômico da lei que vai receber o “sim” ou o “não”:

“Capítulo VI – Disposições Finais
Art. 35. É proibida a comercialização de arma de fogo e munição em todo o território nacional, salvo para as entidades previstas no art. 6o desta Lei.

§ 1o Este dispositivo, para entrar em vigor, dependerá de aprovação mediante referendo popular, a ser realizado em outubro de 2005.

§ 2o Em caso de aprovação do referendo popular, o disposto neste artigo entrará em vigor na data de publicação de seu resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral.”

Pois é, como existe lei internacional sobre comercialização, a qual não permite a importação de produtos proibidos no país de origem, não sei se esse “salvo para as entidades previstas no art. 6º desta Lei” cria condições para que a exportação brasileira de armas – cerca de 90% da fabricação total – prossiga no mesmo ritmo. Como não sei, me calo.

Não me calo é face ao tempo absurdo consagrado às campanhas do “sim” e do “não” sem que o Tribunal Eleitoral use parte substancial desse tempo para esclarecer os eleitores sobre todas as implicações da eventual vitória do “sim” como, por exemplo, a que acabo de citar.

Como publicitário, acho que a campanha do “sim”, apesar do abuso do apelo emocional, poderia dar, também, um recado racional. Quanto à campanha do “não”, apelou quase que só pelos direitos da cidadania, sem pegar pelo lado do indivíduo como, por exemplo, a arma sendo usada como legítima defesa da pessoa e do patrimônio. Outro aspecto deixado de lado é a realidade rural, completamente diferente das diversas realidades urbanas.

Acho que essa campanha não mostrou, por parte dos “anunciantes” – Tribunal Eleitoral, “sim” e “não” – o nível de inteligência e criatividade já atingido pela propaganda brasileira.

Quanto ao voto, a responsabilidade é sua. Você decide.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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