Urgências sanitárias são fatos inerentes à condição humana. No entanto, não há quem, recluso na solidão do banheiro, não tenha soltado a mente em divagações filosóficas, tais como: a princesa de Mônaco é refém desta mesma necessidade, assim como fulgurantes celebridades, reis, presidentes e estadistas. Ou seja, diariamente este ato nos lembra o quanto somos primitivos nesta hora, trogloditas até. Nunca haverá um modo civilizado ou glamouroso de libertar o ventre, ou digamos, fazer cocô. (Até onde vai um cronista para se fazer entender, que horror.) Portanto, a despeito dos métodos de sublimação, como levar literatura, jornais e revistas para negar aquele momento (e exercer alguma ritualidade), o fato é que sabemos o que estamos fazendo ali, a portas fechadas, e tentando não pensar no assunto.
Porém, não há nada de mais constrangedor do que esquecer de trancar a porta e ser pego nesta circunstância, natural quando se está só, mas, embaraçosa, ridícula, constrangedora e de um profundo mal estar, quando alguém abre a porta de sopetão e fica por alguns segundos paralisado, observando a cara de terror do ocupante distraído.
O abuso da metáfora pode sugerir uma mente preguiçosa do escritor, mesmo assim, políticos que são pegos sentados no vaso, me parece uma figura de linguagem perfeita. Achavam que estavam absolutamente seguros, protegidos por todo o tipo de engenharia fraudulenta, mas houve um despercebido deslize, uma distração boba: esquecerem de trancar a porta do banheiro.
Muitos governantes e políticos justificam seus atos de corrupção e todo o tipo de maracutaia inspirados na cultura escatológica segundo a qual, na história republicana, as entranhas de todos os partidos são um rio subterrâneo de excrecências (quase que eu disse merda). Todos roubaram, sem exceção. E, quando a imprensa, sob a forma de reportagem investigativa, abre a porta do banheiro e pega o governante sentado no vaso sanitário, o que ele faz? Convoca todos os seus assessores a entrar no banheiro e ali fazem uma reunião politico-estratégica para negar o fato e oferecer para a imprensa outra versão (às vezes a imprensa entra junto no banheiro e acompanha a reunião). Em geral o governante tenta demonstrar que não está, e nunca esteve, naquele banheiro. Aquela foto foi uma armação com motivações eleitoreiras. “Mas, e este mau cheiro, governadora, do que se trata?” – pergunta o jornalista. “Foram os meus inimigos que plantaram um rato morto aqui no palácio”.
Com o tempo, muitos dos agentes políticos se tornam tão imersos em suas defecções que se sentem confortáveis nelas, como um bebê, com as fraldas sujas. Sarney e Roseana, por exemplo, estão impregnados ao limite da cultura do nepotismo e do favorecimento. Seus olhos, diante das denúncias e das câmeras, mostram um inequívoco sentimento de injustiça. Estavam perplexos. Roseana, filha dileta, criada e educada dentro do caldo “cultural” das elites maranhenses, não entendia (sinceramente), a razão de tanto barulho. Seu olhar chega a ser comovente, se não fosse o mau cheiro do seu entorno.

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