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Estórias campeiras – II

Naqueles dias, disputas de terras não eram resolvidas em rodas de chimarrão ou nas bodegas de estrada. Era coisa muito séria, com discussões que envolviam o delegado da comarca quando terminavam em tiroteios. No correr dos anos, os vastos campos ao longo da Lagoa dos Patos trocaram de mãos várias vezes, desde as invasões dos castelhanos e dos entreveros de fronteira. A mãe contava que meu avô, o Coronel Picurra, se via obrigado  a intervir para impedir brigalhadas entre irmãos, tios e cunhados.

***

Anos mais tarde, eu recordava com gosto daquelas estórias. Em uma, o Alvinho Moraes, que não se conformava com a marcação de terras do governo Vargas, recebia os fiscais com a Winchester engatilhada. Foi até preciso convocar o delegado Amâncio para botar água fria na fervura.

Mas quando o delegado chegou na fazenda, o tio limpava seus dois .38 niquelados, avisando que em terras ganhas a pata de cavalo ninguem entra sem ser convidado. Felizmente, o delegado estava acompanhado pelo meu tio João, um homem alto e forte, manso de conversa e firme nas atitudes. Depois de um tempo, ouvindo que os homens do governo queriam apenas medir as terras para a nova estrada federal, o tio se acalmou, guardou os .38 e acendeu um cigarro de palha. Depois, olhou para o delegado e falou que os federais poderiam chegar, mas deviam pedir licença com bons modos – como se fazia antigamente.

Acertadas as pontas, o delegado e o tio João foram conversar com os engenheiros. Ponderaram que seria bom avisar antes das tais medições, pois os homens do campo não gostam de gente de fora. Dali em diante, a vida seguiu seu curso, cada um em seus afazeres. Mas mesmo assim, meu tio João seguiu de olhos bem abertos, pois conhecia o apego dos gaúchos pela terra.

***

Um ano depois de ouvir aqueles causos, eu andava pelos campos do avô Picurra, quando avistei bem no alto de uma coxilha o vulto solitário de um cavaleiro. Aos poucos, deu para ver que a figura usava um poncho avermelhado e montava um cavalo de pelo escuro. Na hora, a imaginação inventou de brincar comigo e me fez cismar:

“…É um poncho igual ao do tio Alvinho, que por sinal, sempre montava um cavalo zaino…”.                               

Avancei mais e ao chegar mais perto, não havia ninguém na coxilha.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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