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Estórias do anteontem

“Da velha chácara triste,

Não existe mais a casa

Mas o menino ainda resiste”.

Manuel Bandeira.

Quando fez 60 anos, o poeta pernambucano Manuel Bandeira, se queixava que sua memória andava de cabeça pra baixo. Não conseguia lembrar do livro que estava lendo, mas recordava em detalhes do casarão onde nascera no Recife. Mesmo quando lhe contaram que o casarão fora demolido, ele alegava que em sua memória, ele continuava inteiro e cheio de vida. E escreveu:

“Os laços da memória são impossíveis de romper.

São pedaços vivos da nossa alma”.

Aqui no Sul, o poeta Mario Quintana comentava com os amigos que traduzir “Em Busca do Tempo Perdido” foi uma tarefa estafante, mas que lhe dera consciência do significado do tempo passado.

E que Marcel Proust o fez sentir deslocado no tempo presente e com vontade de voltar ao Alegrete, onde passara grande parte da infância. Mais tarde, ele lembraria aquela emoção em um único verso:

 “Nostalgia é uma felicidade atrasada”.

 Certos escritores e cineastas tiveram a coragem e o talento para se aventurar pelos caminhos do subconsciente para resgatar memórias escondidas ou perdidas. E nos mostraram como encontrar a chave secreta capaz de destrancar nosso baú de memórias. Cada um de nós possui a sua, em algum lugar, remoto ou não de seu passado. Para Proust foi –

 “…Uma pequena conchinha, tão gordamente sensual”.

Aquela prosaica Madelaine acordou nele uma infindável sequência de memórias congeladas. Nas telas dos cinemas, Orson Welles mostrou um torturado personagem em busca de sua libertação no trenó de neve com o qual brincava, quando foi levado para longe de sua mãe. Uma chave chamada Rosebud.

 ***

Não é preciso ir até Xanadu para encontrar vestígios do tempo perdido. Nossas lembranças podem ser acordadas a qualquer momento, seja por um rosto na multidão, uma antiga canção, o sino de uma igrejinha no fundo de um vale. São chaves quase mágicas, como nos contos de fadas e duendes, mas capazes de nos levar de volta à casa onde fomos criança ou ao bairro onde brincávamos de esconde-esconde.

No outro dia, ao cortar caminho pela minha antiga cidade, me encontrei no bairro onde fui moleque de rua. Estava tudo diferente do que eu lembrava. Assim como os casarões da Recife do poeta, as casas geminadas de porta-e-janela haviam sido postas abaixo e os paralelepípedos da rua, cobertos por camadas de asfalto negro.

Insisto, buscando um sinal, um vestígio que seja daqueles dias antigos. A alameda dos velhos jacarandás sobreviveu, mas ainda não é tempo de floradas. Melhor voltar em um outro Novembro, quando a rua fica atapetada de flores azuis. Ainda lembro que a minha mãe dizia que era presente pelo meu aniversário.

E eu acreditava.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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