Colunas

Estórias do Bom Fim

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“Havia um tempo de cadeiras na calçada.

Era um tempo em que havia mais estrelas.”

Mario Quintana.

***

Era voz corrente de que o velho Benjamin era o mais antigo morador do Bom Fim. Ele falava do incêndio que destruiu a fábrica de chapéus Prada e o que queimou o altar de madeira da capela do Nosso Senhor do Bom Fim. E contava de quando a Avenida Oswaldo Aranha se chamava Caminho do Meio e se alongava até Viamão. Eu ouvia aquelas estórias, imaginando como seria o Parque da Redenção quando era pastagem e pouso para os tropeiros que levavam gado para os Campos da Vacaria. Devia ser o mesmo Potreiro da Várzea, onde meu avô comprava cavalo chucro e boi carreteiro. 

***

Para um guri novo como eu, o Bom Fim era um território meio misterioso, com muitas promessas de descobrimentos. Tudo começou quando a Dona Amanda, professora no Jardim da Infância, nos levou a passear pelos jardins da Redenção. Como fiquei deslumbrado! Adorei os espelhos de água e o chafariz que jogava água pro céu. Depois, no primário do Instituto de Educação, na volta para casa, procurava novos caminhos, explorando as ruas e becos do bairro. Às vezes, pela Felipe Camarão, dobrando a esquina do Fedor – um boteco que nunca fechava as portas. Ou subia pela Fernandes Vieira, passando a Padaria Três Estrelas, com o perfume de pães saindo do forno. Além disso, havia a João Telles que aguçava minha curiosidade, mas era preciso tomar cuidado ao cruzar pela Travessa Cauduro, com seus tipos de má fama, que o pai dizia que “tinham ficha na Central”…                  

Caminhar pela Avenida Oswaldo Aranha era o melhor de tudo – o vento nas altas palmeiras do canteiro central… o sino da Santa Terezinha. De tempos em tempos, um bonde barulhento, vindo ou indo para os altos de Petrópolis. Sem falar nos artistas de Hollywood nos cartazes no Cinema Baltimore e nas vitrinas da Casa Bayadeira. Ali admirava coisas para quem sonhava um dia ser desenhista – os estojos com 32 lápis-de-cor Johann Faber, as canetas Parker 51, tintas para aquarela, pincéis, tinta nankin, os blocos de papel-de-seda. 

***

Naquelas andanças aconteciam encontros, uns mais apreciados, outros, nem um pouco. Quase sempre, era com o Isaac, filho dos donos da Casa Gato, que vendiam sedas chinesas a metro. E o Isaac contava o que acontecia à noite no Bom Fim. Um dia, uma briga feia na porta do Fedor, no outro, um ferido a navalha dando entrada no Pronto Socorro. Ou a sirene da rádio-patrulha que acordava a todos na alta madrugada.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.