Passei a última semana num tiroteio de exames pedidos pelo meu cardiologista – Cláudio Munhoz – e em tratamento de faringite. Ao tentar escrever para esta coluna, em vez de faltar-me a voz, faltou-me o assunto. Uma hipotética ultrassonografia denunciaria que estou oco.
Lembrei-me que neste mês de agosto Jânio Quadros renunciou à presidência em 25 de agosto de 1961 e Getúlio Vargas renunciou à vida.
Entre as mais de 400 colunas que já escrevi para Coletiva.net, uma, de 23 de agosto de 2004, trata do dia do suicídio de Getúlio.
O Flávio Rangel a quem o texto faz referência, o cigarro tirou de cena aos 54 anos, ele que foi um dos maiores diretores de teatro do século XX e que, num festival da França, deixou de ganhar o prêmio de melhor diretor dado a Bertolt Brecht (in memoriam) por 18 votos a 17.
Vamos à coluna de 2004:
A memória que não se apaga
Eu estava no chuveiro e, pouco antes das nove, meu pai anunciou: Getúlio suicidou-se!
Era terça-feira, 24 de agosto de 1954. Enquanto me vestia, às pressas, pensava no amigo/irmão Flávio Rangel e em nossas andanças, na véspera.
São Paulo parecia haver sucumbido à UDN. Os militares da Aeronáutica, que desde o atentado na Rua Toneleros, quando a má pontaria matou o acompanhante de Carlos Lacerda – Major Rubem Vaz -, haviam criado a “República do Galeão”. Objetivo: derrubar Getúlio da Presidência.
Comentamos, na véspera, que o misto de trabalhismo-populismo de Vargas, que impregnara São Paulo há muito, parecia em declínio. Não nos admiramos de ver conhecidos – que sabíamos comunistas – segurando tabuletas e faixas com uma única palavra: Renúncia. Logo depois do acordo entre PC e PTB, com Prestes discursando ao lado de Getúlio, na campanha presidencial que em 1950 recolocou o ex-ditador no Catete, os comunistas iniciaram oposição ao trabalhismo.
Flávio e eu éramos cidadãos sem legendas. Nossas famílias haviam participado da Revolução Constitucionalista de 1932 e, há muito, ele e eu alimentávamos ódio aos ditadores do mundo. Getúlio não tinha sido exceção e a nossa formação pequeno-burguesa não entendia como Prestes conseguira ficar ao lado de Getúlio, o ditador que em 1936 entregou Olga Prestes, sua mulher, para os assassinos nazistas.
Desse ódio não escapava seu antigo chefe de Polícia, Filinto Muller, responsável na ditadura por assassinatos e torturas, principalmente de comunistas.
O criador do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), no Estado Novo, responsável pela Censura, Lourival Fontes, era motivo de nojo. Nosso radicalismo da juventude era uma indústria de náuseas, a mesma náusea que, já maduros, devotamos a Armando Falcão, um daqueles patéticos ministros da Justiça (sic) da ditadura militar.
O Partido Comunista, que nunca viu o “ouro de Moscou”, só “pensava” o que Moscou ordenava. Em Paris, no Café de Flore e no Aux Deux Magots, em Saint Germain de Prés, André Breton, Camus, Simone de Beauvoir, Sartre e parte da inteligência francesa discutiam os caminhos do homem e do mundo.
No Brasil, politicamente, Flávio e eu éramos dois utópicos simpatizantes do socialismo. Artes em geral, literatura e teatro em particular, ocupavam nossas cabeças.
Com um tiro no coração, Getúlio mudou a história e, inclusive, adiou para 1964 o coroamento da ganância udenista pelo poder.
Naquela manhã, 24, antes das 11, Flávio e eu observávamos uma cidade completamente diferente da São Paulo da véspera. Piquetes de trabalhadores gritavam sentenças de ódio, destruíam lojas e promoviam um tumulto generalizado.
No Largo São Francisco – espaço da mais tradicional Faculdade de Direito do Brasil, onde Castro Alves e Rui Barbosa foram contemporâneos e, anos depois, foi ouvida a famosa Oração aos Moços, de Rui – havia diversos oradores discursando para grupos distintos (parecia manhã de domingo no Hyde Park londrino). Flávio e eu começamos a rir quando vimos alguns comunistas discursando contra Lacerda e outros responsáveis por aquela tentativa de golpe. A ordem de Moscou – meia volta, volver! – chegara rápido demais!
Lá pelas três da tarde, Flávio e eu escolhemos, num bairro sossegado, um lugar para almoçar. Lá ficamos, conversando horas, sobre como um tiro, um só tiro de revólver, teria o efeito de milhões de tiros de canhões e mudaria a história de um país.
Quando nos despedimos, fim de tarde, o centro de São Paulo parecia o de uma cidade morta, desabitada, mais desabitada que naquele domingo em 1950 quando, no Maracanã, o Brasil foi derrotado pelo Uruguai.
Eu fui o único passageiro daquele bonde que levava para casa um solitário e atônito cidadão. Até hoje acho difícil explicar a profunda, imensa solidão cívica que levei para a cama naquela noite de 24 de agosto.
Inté.
Vitrine (Comentários dos leitores)
Ao pé da coluna:
A História Vivida – Mário Querido: Imagine se a brisa da inspiração estivesse soprando mais forte. Um comentário mais que atual, apesar da peça “O Despacho” haver sido escrita há 50 anos. Valeu a pena retomar o tema política. Abração do Francisco Cunha, São José, SC
| Caro Mario, cada vez que você menciona Porto Alegre, minha saudade aflora por esta cidade tão acolhedora. Como acho que já comentei, trabalhei em POA de 1983 a 1987 e de 1994 a 1996. Nunca tive a chance de morar lá, pois estava sempre indo e vindo. E durante boa parte deste tempo ia também a Santa Cruz do Sul, a cidade alemã mais ao sul dos trópicos que conheço. Abraços e continue sempre com as crônicas. Claudio Fischgold, Rio |
Mario, você surpreende sempre… que vida rica… quanta história pra contar! Rodrigo Sá Menezes, São Paulo
Ô Mario, veja que situação assustadora. Há mais de 50 anos um personagem seu conclui “que o voto nada valia”. Seria apenas uma encenação para legitimar a classe dominante onde sempre ela quis morar, em palácios. Novíssimas gerações, aquelas lideranças todas mortas, e seu diálogo prossegue atualíssimo, isto é, eternizado. Agora o Despacho acontece apertando números, aparecendo imagens e
seguidas de sinal sonoro ao pressionar o FIM. Mais surrealista, impossível! Em outubro agora estaremos todos aplaudindo a nova estreia do Despacho. Nessas horas você até pode acreditar que virou Autor para todo o sempre, amém. Parabéns Mestre Mario ! Abração, Léo Christiano, Rio.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial