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Eu amo, tu amas…

QuadrilhaJoão amava Teresa que amava Raimundoque amava Maria que amava Joaquim que amava Lilique não amava ninguém.João foi para o Estados  Unidos, Teresa para …

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

que não amava ninguém.

João foi para o Estados  Unidos, Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes

que não tinha entrado na história.

(Drummond)

Estávamos, mulher e eu, navegando pelo mar Egeu, na Grécia e, como é hábito nos navios de turismo, fomos instalados numa mesa para refeições com outro casal.

Também é comum que surjam conversas e que cada um fale um pouco de si mesmo, num sumário tipo de identificação oral.

A companheira de mesa era cidadã espanhola, de Madri e ele um porto-riquenho de São João.

Até aí, tudo normal. O inusitado é que ambos, profissionais com as vidas já resolvidas, há mais de 10 anos se acasalavam e passavam juntos as férias anuais e tão somente as férias. Ambos solteiros e sem filhos!

A simples casualidade, que nos fez comensais da mesma mesa, não permitia que este antigo repórter fizesse uma matéria para “leitura” pessoal e se aprofundasse nessa história (de amor?).

Fiquei apenas com o registro e essa é uma história não grega que eu trouxe da Grécia, além de conhecer, em território turco, as ruínas de Éfeso, antiga, grande e importante cidade greco-romana.

Eu não podia, é claro, invadir limites e restou-me imaginar como seria o estatuto dessa estranha relação. Amor, amor mesmo, até poderia ser, mas um amor vivido de forma tão diferente que me obrigava a pensar como as duas pessoas se ajustariam nos 11 meses restantes de cada ano.

Seriam dois amantes ligados pelas letras que se compraziam em manter uma copiosa correspondência?  Sairia um livro daquela relação? Ou seriam duas pessoas ligadas de tal forma a uma atividade-sacrifício que se impunham total dedicação a ela? Sei lá, e aqueles dias da navegação entre as ilhas gregas foram insuficientes para que eu saciasse a minha curiosidade.

Num dos últimos domingos li uma reportagem sobre casais que se juntaram por acaso, num lance fortuito, e estão juntos, alguns até com bodas de ouro comemoradas.

Uma ligação telefônica por engano, um táxi na madrugada, uma “trombada” na calçada de uma rua, juntaram pessoas até então desconhecidas em histórias de amor. Até aí, apenas acasos.

Isso remete a uma pergunta que me faço e cujas respostas jamais descobri, mas onde o acaso não entra. Se me pergunto o que é o amor tenho respostas em mim mesmo, mas se me pergunto como acontece o amor e o motivo, ou motivos desse acontecer, tudo me é mistério.

Caso você realize uma pesquisa com 100 pessoas, com a pergunta “Qual foi a motivação para o seu primeiro amor?” não é improvável que você obtenha 100 respostas diferentes.

Essa química que transforma um par em um casal é o mistério que junta milhões de pessoas diferentes, de hábitos diferentes, de culturas diferentes, uma química com uma ou mais respostas diferentes em cada caso.

Acho que cada um de nós carrega um número quase infinito de “marcas da vivência” que nos fazem um ser único, como se carregássemos também um DNA inefável e de arqueologia impossível.

Esse grande mistério me faz passar a vida cantando Tom e Vinicius:

Assim como viver sem ter amor não é viver

Não há você sem mim, eu não existo sem você.

Inté.

 

Este texto foi originalmente publicado em 25/06/2012.

Autor

Mario de Almeida

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