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Eu, heim?

Moro numa aldeia, uma pequena cidade ou um mega condomínio. Apartamentos e casas somam 1.300 unidades em 600 mil metros quadrados, que ainda abrigam …

Moro numa aldeia, uma pequena cidade ou um mega condomínio. Apartamentos e casas somam 1.300 unidades em 600 mil metros quadrados, que ainda abrigam dois colégios, uma igreja, um clube e quatro shopping centers. E uma fazendinha para a criançada saber que ovo não nasce na geladeira. Habitantes: mais de 5 mil.

Aqui, há muitos anos, o Carnaval é comemorado com o desfile de uma banda dos moradores e cujo samba de cada ano, além de criações próprias, tem merecido o carinho de famosos compositores das escolas, principalmente da Estação Primeira, a celebrada Mangueira.

De Alexandre Maia, liderança da Banda, ouvi: Mario, o samba da Banda do Novo Leblon, no próximo ano, será escolhido entre cobras de algumas escolas. Você pode me dar uma mão para fazer uma sinopse para ser entregue aos compositores concorrentes? Como eu estava distraído e sou de boa índole, respondi: Posso.

Depois, fiquei pensando se eu seria a pessoa indicada, pois minha relação com a música, no duro, duro, foi mesmo a de ouvinte. Sou tão desafinado que, nos tempos de Ginásio, minhas provas no Canto Orfeônico eram sortear um dos hinos brasileiros e dizer a letra.

Resolvi dar um balanço nessa relação.

Com Sérgio Cabral – o pai – e o então sócio Cyro Del Nero, fizemos um lindo trabalho para a Rio Gráfica Editora (hoje Globo): discos e fascículos semanais – a história da MPB até 1975 – nas bancas de jornais. Minha tarefa, porém, foi só a administração e divulgação do projeto, pois o dono do assunto era mesmo o Sérgio, e a Direção de Arte coube ao Cyro.

Antes do golpe de 1964, na Última Hora de Porto Alegre, criei um concurso dos “melhores” de diversos setores e entreguei para Elis Regina, como cantora, o primeiro prêmio de sua vida. Para a UH, revisei e publiquei capítulos da vida do Lupicínio Rodrigues escritos por ele mesmo, a lápis, em papel-manteiga, aquele em que se embrulhava pão.

O dono da UH era o Samuel Wainer, então namorado da Danuza Leão, e, a pedido dele, promovi um show de Bossa Nova na capital gaúcha com músicos do Rio e que deveria ser apresentado por Miele e Ronaldo Bôscoli. O Bôscoli foi até o Aeroporto Santos Dumont e, como tinha medo de avião, deixou que o Miele se virasse sozinho. Paulo Moura e seu sax deram um show dentro do show.

No ano de 1969, eu chefiava a conta publicitária e de promoções da Shell e produzimos uma campanha com os “Mutantes”, cujos filmetes, spots e anúncios fazem parte da história da propaganda brasileira. No mesmo ano, também para a Shell, trouxemos o conjunto do Sérgio Mendes dos States e fizemos espetáculos no Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo. Conheci, além de Sérgio, um dos maiores bateristas e percussionistas daqui e de além-mar, Dom Um Romão. Na capital paulista, como um dos espetáculos foi no Teatro Municipal, a Shell incumbiu-me de representá-la junto ao prefeito. Conheci, então, ainda em início de carreira muito bem-sucedida, o ladrão Paulo Salim Maluf. Ossos do ofício…

Logo após a vitória de Jânio para presidente, em 1960, escrevi uma peça, “O Despacho”, que entrou para a história do teatro gaúcho, e no Dicionário do Teatro Brasileiro é citada como um exemplo emblemático do teatro de resistência. Nessa peça, na qual havia umas quatro músicas bem simples, tive meu único momento musical e apenas como letrista, parceiro de Ruy Barros. Na época, a ala conservadora da Igreja estava em luta interna com a ala progressista e tratei com crueldade os conservadores. Numa cena, enquanto o sacristão recolhia os óbulos, um coro cantava:

Igreja não se acaba não
Igreja é indústria de construção
Levanta uma parede aqui
Derruba outra ali
E o dinheirinho vai entrando…

Na minha peregrinação existencial, fui abonado com grandes amizades no verbete música.  Nos últimos anos de 1960, publicitários e artistas jogavam vôlei na praia de Ipanema e foi fundado o Assef Praia Clube na garagem do publicitário Osvaldo Assef onde a gente se encontrava e biritava. Lá, conheci Chico Buarque, Nelson Motta e Paulinho da Viola. Com Paulinho e Capinam, eu jogava sinuca no antigo Lamas do Largo do Machado pré-metrô. Com Chico e Nelsinho Motta, a gente bebia no Antonio”s desde que abriu suas portas na Bartolomeu Mitre, onde também assinava o ponto o maestro Erlon Chaves, antigo companheiro de ginásio, em São Paulo. No Antonio”s convivi com Tom Jobim, Toquinho, Nana, Dori Caymmi, Lúcio Rangel e reencontrei Vinicius, que conhecera em Montevidéu, onde ele era adido cultural.

No Luna”s, onde a promotora musical Tereza Aragão pontificava antes de ser nome de rua, Miúcha, quando deprimida, me telefonava e eu ia encontrá-la e a gente quebrava um monte de copos, numa versão tupiniquim do quebra-pratos dos gregos. Nessas madrugadas, portas já fechadas, a gente tomava a sopa com os garçons e depois, Pepe, o dono, no seu fusquinha, me deixava em casa, em Copacabana.

Miguel Gustavo, o autor do hino da seleção de 1970, criou, a meu pedido, diversos jingles publicitários e me gratificou com um texto teatral de sua autoria, em versos, que desde a primeira palavra é só safadeza; conheci Antonio Almeida, o compositor do famoso “Olé, Olá…”, que usei numa campanha para a seleção brasileira de futebol, a tricampeã.

Nelson do Cavaquinho, que tocava violão mesmo, conheci na Fiorentina, lá no Leme e se, por acaso, alguma vez o vi ou o ouvi sem ele estar bebum, então o bebum era eu, pois disso não me lembro.

Lá por 1965, Dona Zica e Cartola tinham um restaurante na parte de cima de um sobrado na Rua da Carioca, o Zicartola, que começava a encher no início da noite e ia enchendo até ficar lotado de artistas. E dê-lhe samba. Quando subsíndico da Aldeia, eu trouxe aqui Dona Zica comandando uma ala para o grito de Carnaval de 1985. Não consigo achar uma foto minha dançando com ela, mas o Diploma da Mangueira que recebi naquele sábado está guardado entre as boas recordações. O que não pude guardar foi um beijo da Elizete Cardoso, a Divina, quando nos despedimos no aeroporto aqui do Rio, na volta de um show em Brasília, onde a levei numa festa da Globo.

O compositor Sidney Miller resolveu abreviar uma linda carreira e, sem aviso, desamparou os amigos com um adeus inexplicável em 1980.

No livro sobre o Antonio”s, conto um espetáculo privé em casa de Tom Jobim, com ele ao piano, o jornalista e autoridade musical Lúcio Rangel no seu “sax nasal” e Nana Cammy cantando, sem microfone, pois a platéia, além de mim, era o Roniquito, figura famosa da Zona Sul.

Conto no mesmo livro que o poeta e escritor Paulo Mendes Campos, encontrando Lúcio Rangel quase ao final da manhã em boemia prolongada, apelou:

– Lúcio, só beber não dá, vamos almoçar no Antonio”s.

– Sim, mas vamos tomar alguma coisa antes, pois eu não como de estômago vazio.

Inté.    

PS. A tal sinopse motivadora desta crônica já está nas mãos dos compositores concorrentes e nolink “Banda” do site www.novoleblon.com.br.

Autor

Mario de Almeida

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