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Falo com João Saldanha

Por Marino Boeira

Falo com o gaúcho do Alegrete, João Saldanha (1917/1990), jornalista esportivo, treinador de futebol e comunista, também chamado de João Sem Medo.

– João Saldanha, esse apelido João Sem Medo, tem a ver com a sua coragem de enfrentar politicamente os donos do poder na época da ditadura, mas também com suas brigas pessoais. Uma das que ficaram mais famosas foi com o goleiro Manga. Conta como foi isso?

– “No campeonato carioca de 1967, eu treinava o Botafogo e o nosso goleiro era o Manga. Ganhamos por 2 a 1, do Bangu na final, mas eu fiquei desconfiado da atuação dele e comentei isso à noite na resenha esportiva da TV. Ele se incomodou e me mandou recado dizendo que queria ver eu repetir isso na frente dele no dia seguinte, na festa da vitória, num clube social. Eu fui e quando ele veio me tirar satisfação, dei um tiro pra cima e ele deve estar correndo até hoje. Depois me dei conta que podia ter sido uma armação do Castor de Andrade, presidente do Bangu e um bicheiro conhecido no Rio e que tinha uma bronca comigo.

– Outra briga maior foi com o então ditador, o general Médici.

– “Eu era treinador da Seleção Brasileira e ele resolveu dar palpites na escalação. Eu respondi que ele escalava seus ministros e eu os jogadores da Seleção”.

– Mas não foi só isso.

– “Não. Durante o sorteio para os grupos da Copa do Mundo, em janeiro de 1970, no México, distribuí para os jornalistas presentes um dossiê em que denunciava as atrocidades cometidas pelos militares – incluindo os nomes de mais de 3.000 presos políticos.”

Como jornalista você tem uma série de frases que ficaram famosas. Sobre o misticismo de jogadores, dirigentes e técnicos, por exemplo, o que você disse?

– “Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava empatado”.

E aquele outra sobre aquele negócio dos jogadores ficarem concentrados antes dos jogos?

– “Se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária seria campeão invicto”.

– Foi na sua época que se começou a falar em futebol para as mulheres. O que você falou sobre isso?

– “Só se a Adidas se associar com a De Millus para providenciar o uniforme”.

Como era seu modelo de jogo na preparação da Seleção para a Copa de 70?

“Campo de futebol não é loteamento. Ninguém é dono de lote, de posição fixa.”

 – Como você vê o futebol para os brasileiros?

– “O futebol é um ramo da arte popular. O Brasil é um país eminentemente pobre. Para o futebol, basta uma bola. O menino descalço pode jogar. Uma rua, uma bola de pano ou de borracha, uma bola qualquer e pronto: o menino joga.”

Muito já se disse que futebol é uma forma de alienação. Você concorda com isso?

-“Futebol não é alienação nem nada: é lazer, que faz parte da vida. O homem precisa – para viver – de casa, comida, roupa que são indispensáveis ao ser humano. Para manter essas coisas, precisa de trabalho. Para viver, precisa de lazer. Precisa caminhar, passear, namorar, se divertir e tudo o mais. O futebol é um lazer que tem uma expressão de arte, como o tênis”.

Autor

Marino Boeira

Formado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), foi jornalista nos veículos Última Hora, Revista Manchete, Jornal do Comércio e TV Piratini. Como publicitário, atuou nas agências Standard, Marca, Módulo, MPM e Símbolo. Acumula ainda experiência como professor universitário na área de Comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e na Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos). É autor dos livros ‘Raul’, ‘Crime na Madrugada’, ‘De Quatro’, ‘Tudo que Você NÃO Deve Fazer para Ganhar Dinheiro na Propaganda’, ‘Tudo Começou em 1964’, ‘Brizola e Eu’ e ‘Aconteceu em…’, que traz crônicas de viagens, publicadas originalmente em Coletiva.net. E-mail para contato: [email protected]
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