“O que eu sou hoje é apenas a soma do que fui,
um sobrevivente de mim mesmo”.
(Bernardo Soares).
O carrinho vermelho de corda ao pé da árvore de Natal… os campos sem-fim desfilando pelas janelas do ônibus verde-e-branco…os abraços sufocantes das tias cheias de saudades… Para que limbo fugiram aqueles fragmentos de felicidades dos tempos de antigamente?
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Meu sábio Tio Armando costumava me consolar, garantindo que minhas tralhas e brinquedos sumidos não estavam perdidos de verdade. Estavam em um limbo à espera de serem encontrados. Só não me contou como se fazia isso…Mas eu ficava matutando que o tal limbo misterioso devia ser um tesouro recheado de coisas perdidas e não-buscadas.
Lá deviam estar os figos maduros e suculentos que a mãe colhia da janela da cozinha e nos servia cobertos de mel…também a coleção de gibis que eu guardava em uma caixa de madeira da Vinícola Peterlongo. Com jóias como o Número Um do Super Homem e o Almaque do Tico-Tico de 1944.
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Minha memória costuma brincar de esconde-esconde. Acho que ela nos lembra do que nos deu alegrias e deslembra as coisas que nos causaram tristezas. E muitas vezes vai além e nos transporta até cenas e cenários há muito esquecidos, mas que hospedaram nossos pecadilhos e nossas inocências.
Como a cerca de madeira de nosso quintal, que tinha frestas de onde eu espiava as coxas roliças da empregadinha da Dona Sahra levando roupa no tanque de cimento.
E no outro dia me assombra a alta torre de pedra da igreja do Bom Fim, que batia seu sino me chamando para as vésperas das 6 horas.
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