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Fermino perdeu um livro

O tempo passou ligeiro como o vôo da andorinha e quando Fermino se deu conta, já não era mais o jovem inquieto de antes. …

O tempo passou ligeiro como o vôo da andorinha e quando Fermino se deu conta, já não era mais o jovem inquieto de antes. E, aos poucos, passou a desgostar daquilo que parecia tão bom em outros tempos. Até pensou em encurtar os galopes das manhãs e quando chegava o dia de viajar, ficava procurando pretextos para adiar o que não podia ser adiado.

No entanto, quando mais moço, Fermino das Dores tinha gosto em viajar para a cidade grande. Admirava os prédios altos como eucaliptos e se detinha em mirar de esguelha as moças passeando nas praças floridas e nas ruas quietas. As coisas haviam mudado, a cidade crescera demais, ficara agitada e ruidosa. Nas ruas, as pessoas que antes andavam sem pressa, agora mostravam que não tinham tempo nem para dizer bom dia.

Ele gostava de viajar – era como dar um passeio pela vida. Começava de madrugada, com o tordilho vencendo coxilha após coxilha. Na vila, ainda arrumava tempo para conversar com o dono das cocheiras. Depois, ia até a ponta do trapiche para sentir no rosto a carícia áspera do vento da Lagoa. A travessia era curta, algumas poucas horas que vinham a calhar, para reler alguns trechos do livrinho que sempre levava nas viagens.

Desembarcava no cais do porto e logo procurava resolver os assuntos de banco e cartório. Se esforçava para entender a papelada que tinha que assinar e ainda não se habituara com o talão de cheques. O gerente do banco lhe advertira para não andar com dinheiro, porque as ruas estavam cheias de batedores de carteira. No banco, se espantava com as pessoas falando em voz alta nos minúsculos telefones que carregavam no bolso das camisas. Até teve paciência para contar: uma, duas, dez ligações em poucos minutos.

E perguntava a si mesmo:

– Que assunto seria tão importante pra tanta falação?

Fermino sorriu e abanou a cabeça, revivendo os tempos quando viajava até a vila para telefonar para Pedras Brancas ou para falar com um parente distante. A ligação demorava umas duas horas, dando tempo para ouvir as novidades no bolicho do uruguaio Paco. Quando a ligação chegava, um moleque vinha chamá-lo e ele cuidava de fechar a porta da cabina, para ouvir o que diziam do outro lado da linha. E falava baixo para não saberem o preço que estava pedindo por suas reses.

 

***

 

Em uma das viagens à cidade, Fermino resolveu visitar um amigo, um ex-fazendeiro, que comprara um apartamento no alto de um morro. O elevador tinha paredes de vidro e subiu tão rápido que revirou o estômago de Fermino.

O lugar parecia de cinema, com janelas que davam para o rio, ar condicionado e uma lareira que nunca devia ter sido acesa. A cozinha era enorme e tudo brilhava de tão novo. Faceiro, o amigo lhe contou que tinha três vagas na garagem no subsolo. (Esta parte, Fermino não entendeu direito, pois o ex-fazendeiro não tinha carro e mal sabia dirigir um trator.)

Seu espanto aumentou quando o amigo reclamou da comida sem gosto preparada no microondas e confessou que sentia saudades do arroz-de-carreteiro e da paleta de ovelha, que comia com os peões em sua antiga fazenda. Aquilo deixou Fermino mais do que incomodado. Coçou a cabeça, revendo a imagem do amigo, abanando do alto da janela. Aquele não era o mesmo homem que conhecia tão bem e com quem convivera por tantos anos. Que vivia sorridente, pulava da cama antes do sol, carregava no colo um cordeiro doente e bebia caña de guampa à sombra dos capões. Mas, quando ficou viúvo e os filhos foram estudar longe, de um dia para o outro, resolveu vender tudo e morar na cidade grande.

E Fermino se perguntava: porque as pessoas desejam uma coisa e fazem outra completamente diferente? Ele não entendia o que se passava na cabeça do amigo. Teria sido uma escolha errada ou era aquilo mesmo que ele queria? Mas, então, porque almoçava todos os dias uma comida que desgostava?

 

***

 

As luzes do dia se esgotavam e as sombras já se alongavam, quando o tordilho tomou o rumo da casa. Não usou as esporas, deixando-o seguir a passo pelas coxilhas; mas sua cabeça estava a galope. Lembrou que, no passado, ele mesmo havia feito escolhas tortas, mesmo sabendo que não eram as corretas. E suspirou – talvez seja da própria natureza do homem ceder ao errado, em vez de fazer o certo.

Quando desfez a maleta em casa, deu por falta de seu “El Gaucho Martin Fierro”. Devia ter deixado o livro em algum lugar na cidade, no banco ou no cartório. Era um exemplar antigo, gasto de tantas leituras.

Saiu para a noite e foi olhar as estrelas que brilhavam sobre o campo. Sentiu que precisava voltar à cidade, para procurar o livro e recuperar o amigo.

No silêncio imenso, parecia-lhe que o vento sussurrava palavras de Fierro:

“…Algun día hemos de llegar…despues sabremos a dónde”.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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