Conheci Fortaleza, Ceará, em 1967. Eu fui um “coringa” nos meus cinco anos da então Standard Propaganda e, num período, chefiei a Criação. Pintou uma concorrência (ainda não era licitação) para a conta do Banco do Nordeste do Brasil e fui encarregado de fazer a campanha. Como era Nordeste, “importei” da filial paulista meu amigo, diretor de arte Milton Luz, um “vizinho” nascido no Maranhão.
Fizemos uma campanha ilustrada com capas de cordel onde, entre outros, estavam “Padim Ciço” e Lampião. Coube-me ir apresentar a campanha e lá fui, onde encontrei Barroso Damasceno, nosso representante no Ceará.
Como era quarta-feira, após a apresentação da campanha, muito bem recebida, fomos comer uma Lagosta ao Thermidor, o prato do dia no Náutico, clube que acaba de completar 75 anos.
Já no Rio, recebemos a péssima notícia: assim como ganhamos, fomos garfados. Barroso – até hoje um ativo publicitário naquele Estado – face às suas excelentes relações, conseguiu uma cópia da ata na qual nossa campanha constava como a vencedora. Ata na mão, o superintendente da Standard e eu fomos ao ministro do Interior, general Albuquerque Lima, que tentou, mas não conseguiu, melar a corrupção. Naqueles tempos da “Redentora”, além de pungueado, tu não podias botar a boca no trombone.
Anos depois, então casado com a minha dona, a cearense Áurea, demos início a freqüentes viagens a Fortaleza e a outras cidades do Ceará.
No meu primeiro retorno aos “verdes mares bravios”, terra da “virgem dos lábios de mel”, Iracema, “que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna”, resolvi conhecer a Prainha, uma vila de “muié rendera” e jangadeiros pescadores. Contratei um táxi de porta de hotel e, ao passarmos por Messejana (já foi Mecejana), o motorista deu uma de guia turístico:
– Aqui nasceu Castello Branco.
– Isso não tem a menor importância – disse eu –, mas me consta que aqui nasceu José de Alencar.
Na volta da Prainha, o motorista nos mostrou a casa em que nasceu o grande escritor, filho de um padre e, também, senador do Império.
Acho que os políticos do Ceará e de Fortaleza, eleitos após os anos de chumbo, assim como eu, amam a Literatura e odeiam aqueles cinco milicos ditadores.
O Memorial Castelo Branco, em Fortaleza, belo monumento arquitetônico projetado por Sérgio Bernardes – com um vão livre de 38 metros –, está abandonado e fadado ao desaparecimento. A dialética, no caso, poderá acontecer: se houver a perda em arquitetura, se ganhará o esquecimento do primeiro ditador que, face às suas promessas não cumpridas no discurso de posse, transformou-se no Pinóquio do Ceará. Por outro lado, a então quase abandonada área onde nasceu o múltiplo e prolífero romancista foi tombada pelo Patrimônio Histórico, e a singela construção foi promovida a Casa José de Alencar, um memorial àquele que, inclusive na sua obra regionalista, prestou tributo aos pampas em “O Gaúcho”.t
No “Tronco do Ipê”, ambientado no interior fluminense, o autor, na intuição dos poetas, percebeu que eu escreveria sobre ele mais de 130 anos depois da publicação do livro e prestou-me uma homenagem, batizando o protagonista como Mário que, no final, casa-se com a amada, Alice.
Só não sei se aquele Mário foi feliz como este seu tocaio, pois Alencar anuncia as bodas e encerra o livro.
E eu, a crônica.
Inté.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio) e co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos).

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