É como se ninguém conseguisse ficar quieto. Tudo aquilo que a gente vê, come, participa, fala, vive, consome, precisa estar hiperconectado numa rede para que você possa pertencer a essa rede, avisando a todos que você também viu, comeu, participou, falou, viveu ou consumiu. Você não é nada se você não disser que é alguma coisa.
No momento, entre tarefas de fim de semestre, o trabalho na rádio e mais uns trocentos projetos que eu pego sem saber se vou cumprir os prazos, tento ver a terceira temporada de Dark. Aos desavisados, Dark é uma série alemã que aborda como temática principal o deslocamento temporal, viagem no tempo e sociedades secretas. Ok, você pode não gostar, mas eu sou fanático pelo tema. A forma com que a gente lida com o tempo e o mistério diante de dimensões paralelas, buraco negro e teoria da relatividade, exerce em mim um fascínio gigantesco. A pergunta que um dia eu queria ver respondida não é se “estamos sozinhos no universo?”, mas “se é possível refazer aquilo que já foi feito?”. É claro que a ideia de entrar num DeLorean e transformar a vida de uma cidade depois de ser atingido por um raio penetrou no meu imaginário desde quando esse filme foi feito, visto e, provavelmente, revisto mais de cem vezes. Mas a ficção se provou menos realidade que qualquer outra coisa: 2015 passou sem que a gente pudesse ver um carro voador sequer. Expectativa frustrada, talvez não seja realmente possível.
Mas aí vem Dark e uma mobilização que De Volta para o Futuro não teve – e nem podia ter: as coisas só parecem ter vida quando as redes sociais dão vida a elas. Só que tem uma coisa muito séria na série – sem trocadilhos ou redundâncias – alemã: ela é complexa, cheia de detalhes, minúcias que envolvem uma trama que absorve quem assiste à produção. Ou seja, para que se tenha o clímax, o ápice, a revelação, é indispensável que haja uma surpresa, um susto, uma novidade. Isto é, não contem absolutamente nada sobre a série porque, senão, perderá a graça.
O tal do spoiler – revelar um acontecimento importante de um filme ou série para quem pretende ver o filme ou série, mas ainda não o fez – não é nenhuma novidade. Lembro de um que tomei, assim, na cara, lá em 1999, antes de ver O Sexto Sentido. Quem já viu o filme imagina o que disseram para mim. O filme perdeu toda a graça. Mas, acreditando na benevolência do ser humano, entrei no Twitter e, ainda no meio da terceira temporada de Dark, na minha frente, o terror: involuntariamente, dezenas de spoilers sobre Dark. Um deles estragou um episódio completo, inclusive. Por que não guardam para si tudo isso?
Respondo a vocês: não é por maldade ou por vontade de estragar a diversão dos outros; é por tédio. Nas redes sociais, essa ânsia de dizer que já tem, que já viu, que já comeu, que já conheceu e que já consumiu, faz com que a gente se depare com mais uma característica dessa geração entediada: é uma geração viciada em spoilers. Sobretudo, obcecada em contar. O velho diário secreto dá lugar a um fórum público, em que, do achocolatado da manhã ao frio da noite, lá está um relato do mais perfeito tédio que podemos enxergar. O spoiler é o balde de água fria em que o entediado quer dar em quem ainda não está entediado. Solitário no seu tédio, chama como companhia mais gente, que está animada, e que, com uma revelação aparentemente singela de uma trama interessante, torna-se entediada também.
Já que ninguém está interessado no seu tédio, talvez meu minuto de atenção seja dizer aos outros algo que vai esfriar a animação alheia. A geração spoiler é implacável: não basta ser entediante; é preciso espalhar isso para todo mundo.
