Às vezes, a preguiça procura pretexto. Hoje, o pretexto é a gripe.
Em vez de catar frases dos outros, cujo trabalho desmerece a preguiça, fico só com a última frase-vexame do Lula, o qual, imagino, não tem amigos nem obedece à primeira-dama.
Será que não há um único amigo “não-puxa-saco” do presidente? Fosse eu esse amigo e diria sem rodeios:
– Lula, não abra a boca de improviso. Não exponha a sua ignorância publicamente.
O desagradável – mesmo para pessoas como eu, vacinadas contra o camelô de si mesmo e de oradores que só dizem o que as platéias querem ouvir – é quando as asneiras são ditas no exterior e para chefes de Estado. Foi o caso em Madri: – Vou encontrar com o meu amigo Bush e vou dizer: Bush, resolva o problema da crise porque não deixaremos ela atravessar o Atlântico e chegar no território brasileiro.
Bastou essa pequena frase para que ele deixasse claro que preside um país com mais de 10% de analfabetos, de baixíssima escolaridade, onde cultura é privilégio e ele próprio é um exemplo vivo dessa calamidade.
Em sua megalomania, além do grosseiro erro de geografia, agrediu normas básicas da linguagem protocolar e, dizendo-se amigo de Bush, arrotou que iria intimá-lo a resolver a crise. Não satisfeito, acrescentou a falácia de que se os States não resolverem “o problema da crise” (sic), ele tem como evitar que ela chegue aqui.
Já escrevi que o Lula tem a cara do Brasil e o Brasil tem a cara do Lula, mas com uma ressalva em forma de sugestão: Pitanguy neles.
Nesses momentos em que o Lula abre a boca de improviso, lembro Jean Anouilh, no prólogo da sua versão de Antígona: “A tragédia é repousante porque não há o mínimo de esperança”.
Essa é a hora de comentar com os meus botões que, enquanto o otimista consegue rir do lado cômico da tragédia, o pessimista festeja: Eu não disse?
Bem, voltemos à preguiça e catemos uma frase que escrevi assim que li sobre as negociações, no Rio, do César Maia com o Garotinho. Depois de publicada, lembrei-me que Maquiavel, no seu tratado de como governar, em O Príncipe, poderia ter, também, preparado o espírito dos governantes: Política é a arte de comer merda sem fazer cara feia.
Não sei qual foi a cara do deputado federal Fernando Gabeira, por exemplo, que conseguiu, na legislatura anterior, livrar-se do presidente Severino (lembram-se?), ao saber que teria como pares, nesta legislatura, Antonio Palocci, Fernando Collor, Jader Barbalho, João Paulo Cunha, José Genuíno, Paulo Salim Maluf e Valdemar Costa Neto. Nomes que eu teria grande prazer de encontrar na página de anúncios fúnebres (eu como leitor).
Tenho pena de ver Ibsen Pinheiro, que já presidiu a Casa, reencontrá-la com provas tão gritantes da calamidade moral que envolve o país.
Sempre acusado de debochado, eu insisto: debochada é a realidade.
Minha permanente alegria de viver – sem cair na tentação de aconselhar, pois auto-ajuda não é meu ramo – ganhei garoto, em casa mesmo, com a minha família paulista, gente derrotada na Revolução de 1932, mas que, durante a ditadura Vargas, nunca misturou a cidadania vilipendiada com a possível satisfação existencial.
Outra coisa: preguiça é preguiça e gripe é gripe.
Ao rejeitar o pretexto e não misturar uma coisa com outra, acho que consegui escrever uma croniquinha.
Diga, leitor (a) complacente, se consegui.
Se não, a culpa é só da gripe.
Inté.

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