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“A caatinga estendia-se de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas” (Graciliano Ramos, em Vidas Secas)   Jaén é uma das oito …

“A caatinga estendia-se de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas” (Graciliano Ramos, em Vidas Secas)  

Jaén é uma das oito províncias da comunidade autônoma da Andaluzia, na Espanha, possuia 660.284 habitantes em 2005 e não tenho ideia qual a sua população em 1962, quando em 23 de julho, O Globo do Rio publicou, sob o título de o 1º amistoso imaginário do mundo, a notícia abaixo.

“O clube Jaén, que foi rebaixado na temporada passada à segunda divisão espanhola e se encontra em difícil situação econômica, vai ter uma sensível melhora nas suas finanças, graças a uma inteligente iniciativa do seu diretor, Francisco Gonzalez, que é também diretor da Rádio Jaén. “Programou” Francisco Gonzalez um jogo amistoso entre o Jaén e a seleção do Brasil, bicampeã do mundo, e começou logo vender ingressos para esse jogo, embora tendo o cuidado de avisar que era um match simbólico e que não seria mesmo realizado, mas a venda dos ingressos destinava-se a cobrir o defícit da tesouraria do clube.”.

Sucesso absoluto, a criatividade de Gonzalez não só resolveu o problema financeiro do clube como ainda permitiu a contratação de reforços para o time.  

Joguei minhas ideias para o hipotético e pus-me imaginar o que seria, para imensa parte dos brasileiros, uma notícia auspiciosa.

Que tal um vacilo territorial do Maluf e sua prisão pela Interpol? Ou a condenação, sem apelações, dos mensaleiros? E uma devassa total na corrupção com sede em Goiás, naquela cachoeira de malfeitos?

Um leitor mais desavisado pode imaginar que voltei a escrever sobre política. Nada mais falso: nunca abdiquei de escrever sobre criminosos.

Fiquei pensando o que seria, no meu caso, a almejada hipótese de uma propriedade física.

Como já tenho – e é fácil – a obra completa de Drummond – minha cabeça volta-se para as artes plásticas, não apenas pela qualidade pictórica – o inusitado em Bosh ou em Brughel me surpreende até hoje. Opto pelo trágico e a Guernica, de Picasso, seria minha escolha, não fossem muitas as versões sobre a verdadeira história de sua criação.

No entanto, o que ninguém desmente é que, em 1953, no prédio que Niemeyer projetou dentro do seu trabalho global para o Ibirapuera, eu vi, “ao vivo”, a Guernica, na 2ª Bienal de São Paulo.

Tão trágico quanto o painel de Picasso – ou mais – é o também painel Retirantes, de Portinari, que em óleo sobre tela de 190 x 180 cm, obra-prima de 1944, denuncia a fome no Nordeste brasileiro, tão bem retratada, em 1938 por Graciliano Ramos, no seu inesquecível romance Vidas Secas.    

Alegra-me – e muito – ter sido, em pessoa, a “interface” da Rede Globo e da Fundação Roberto Marinho, junto ao Projeto Portinari, em 1980, então no início de seu trabalho de cadastrar todo o acervo da obra daquele que foi um dos maiores nomes da pintura brasileira.    

Outra alegria – não menor – foi ter visitado em Brodowiski, SP, terra natal do pintor, a casa onde ele passou sua infância e parte da juventude, e, há décadas, é o Museu Casa de Portinari.

Se a memória optar pelo intangível, há que lembrar que amei muito, tenho irmãos, sobrinhos, um filho adotado, duas filhas biológicas, uma neta, um genro amigão, uma multidão de amigos, uma cadela – a Pretinha – que quando se foi já havia abusado da relação afetiva e, pois, nada a reclamar.

Se há desejo a desejar, quando eu chegar ao fim da caminhada, que “minha amiga e companheira no infinito de nós dois” diga que foi bom para ela também.

Inté.

 

Comentário ao pé da coluna: Mestre Mario. Coisas como a que saborosamente nos conta, só acontecem no mundo dinâmico e fascinante da comunicação. Seu relato me fez lembrar meus tempos de publicitário, sempre ligado à área de planejamento e mídia. Os tempos mudaram, hoje quase tudo se resolve virtualmente. Mas a magia daqueles tempos é insuperável. Forte abraço. Carlos Eduardo (F. Cunha), Santo Amaro da Imperatriz, SC

 

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Taí, não dá para dizer que não tens condecorações. E como teu peito é aberto e potente, combinou muito bem. Coluna fluída e simpática. Esses episódios são  nossa verdadeira riqueza. Acaciano, mas tem sua razão. Beijo. Vera (Verissimo), Porto Alegre

Ô Mario! Você fez jus ao Troféu Pena Branca, prêmio da Standard. O Mestre Cícero era, por acaso, ligado ou filiado ao Candomblé?  Sendo ou não, o Caboclo Pena Branca agradece a distinção. O fantástico urbano dos anos 1970/80/90 passa a ter uma fonte riquíssima nos seus textos magníficos. Saravá. Léo Christiano, Rio.

Delícia! Abração. Luiz Cama, São Paulo

Mario, sempre é bom ser brindado com tuas histórias. Abraços. Marco Mazzoni, Rio

Olá. Parabéns com 44 anos de atraso. Eduardo (Coelho P. de Almeida), São Paulo

Mario, que belo fragmento de saudade! Rodrigo A. Sá Menezes, São Paulo

Mario, você faz a gente sentir saudades daquele tempo. Gostei de ler. Abraço. José Roberto Filippelli, Araras, RJ

Meu caro Mario, é sempre um prazer, muito prazer, ler um texto seu. Um forte e fraternal abraço. Nei (Leandro de Castro), Rio

“Waldo e eu varamos as madrugadas e, na quinta de manhã, transformamos todo o material gráfico em slides, gravamos os textos dos anúncios com um locutor local e recebemos, via malote, a fita do jingle já gravado”

‘TRANSCRIÇÃO PARA NOVA ORTOGRAFIA’

Já na quinta de manhã, rapidamente Waldo e eu,  convertemos todo o material gráfico

para uma apresentação em power point e recebemos por e-mail, os textos dos anúncios

gravados pela voz do Willian Bonner. O jingle veio junto. Salvamos tudo num pen drive

comprado ali na esquina e corremos pro abraço… Beijos, Mario. Roberto de Jesus Castro, Rio

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Autor

Mario de Almeida

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