Neste ano do centenário de nascimento de Jorge Amado, no qual a sua história de “Gabriela Cravo e Canela” volta à telinha da “Globo”, 37 anos depois da primeira versão com Sônia Braga no papel título, lembrei-me de uma historinha galante que não acabou bem para a imagem do escritor baiano e nem para os cofres da antiga Editora Globo, de Porto Alegre.
Em seu livro “A Globo da Rua da Praia”, conta José Otávio Bertaso que em 1937, Érico Veríssimo, graduado funcionário da editora, foi alvo de um pedido de Jorge Amado levado a ele por um dirigente do PC gaúcho.
Acontece que Jorge Amado, militante comunista, se dizendo perseguido pela Polícia de Filinto Müller, na ditadura Vargas, foi preso para averiguações e, solto após uma surra, por precaução foi para Porto Alegre, escondeu-se na casa de um “camarada” e pedia que a Editora Globo lhe desse um livro para traduzir e adiantasse o pagamento do trabalho para que ele se escondesse melhor no Uruguai.
Foi entregue um exemplar para o baiano traduzir e o dinheiro pelo trabalho.
Pouco tempo depois um amigo da editora avisava “Tu te lembras da surra que a polícia do Filinto deu em Jorge Amado ? Pois ontem me contaram que foi tudo invenção. O Jorge roubou a companheira de um truculento camarada do Partido, duas vezes maior do que ele, levou uma série de pescoções e, em vista de um reiterado “te parto novamente a cara”, resolveu desaparecer do Rio. O resto da história tu conheces.”
Sabedor da nova versão, Érico comentou que se a tradução não aparecesse em três meses, o trabalho seria dado ao Mário Quintana.
Quintana fez a tradução.
Carlos Macedo Reverbel nasceu em Quaraí, Rio Grande do Sul, em 1912, passou a infância em São Gabriel; aos 15 anos, já era um porto-alegrense e, aos 22, um jornalista.
Quando se foi, em 1997, com serviços prestados a diversos jornais e revistas, deixou uma grande herança cultural e regionalista através de sete títulos de sua autoria, entre os quais a biografia de Simões Lopes Neto, um resgate, em livro, daquele principal autor do regionalismo gaúcho.
Olga Garcia, nascida em São Borja em 1917, ganhou o sobrenome Reverbel em 1941 quando se casou com Carlos. Em 2008, ao falecer em Santa Maria, deixava como herança um trabalho pioneiro à frente de uma cadeira de teatro no Instituto de Educação da capital gaúcha. Autora de 18 livros, Olga foi vanguarda no sentido de capacitar professores primários no uso do teatro como ferramenta de ensino.
Olga e Carlos passaram uma grande temporada em Paris, nos anos 1940, ele como correspondente de jornal e ela aproveitando para fazer um curso de teatro na Sorbonne. Nessa temporada, o então também correspondente Rubem Braga tornou-se grande amigo do casal.
Desde 1957, na minha primeira ida a Porto Alegre como diretor teatral, tornei-me um amigo definitivo do casal e assíduo frequentador da casa deles na Rua Coronel Bordini. Nos anos de 1970, quando fui a Porto Alegre fazer uma palestra sobre marketing cultural para a RBS, visitei o casal e recebi a incumbência de levar um abraço para Rubem Braga, que – sabiam – eu encontraria no Antonio’s, bar que frequentávamos, o que de fato aconteceu.
– Rubem, trago um abraço de seus amigos de Porto Alegre, Olga e Carlos Reverbel.
– Eles são mais que amigos, são irmãos!
Ele não sabia que eu sabia que, em tempos remotos, ele, alegando fugir da polícia, refugiou-se por uma boa temporada com os Reverbel, na Coronel Bordini. Também não sabia que eu sabia que a “polícia” alegada não passava de um marido, corno, mas não manso, que catava o Rubem com uma arma na cintura.
Assim como Jorge Amado, Rubem andara cantando de galo em território alheio.
Inté.
Vitrine (comentários sobre a coluna anterior)
Jovem Mario, bom dia. De volta ao Recife retomo a boa leitura! Nos anos 50 estudei (?) o Latim usando o Ludus Primus, Ludus Secundus, Ludus Tertius e o Ludus Quartus. Ao longo do curso percebi sua importância ao dissecar a palavra aequivocus para compreendê-la. Abraço amigo, Moisés Andrade, Olinda/Recife
Mario, viva! Equi = igual;voco =chamado Voco de vocare, chamar, primeira conjugação. Todavia desejo ficar equi+distante destas investigações etimológicas que me evocam (vocare de novo) as poucas aulas de Antenor Nascentes, no Colégio Pedro II (Internato) em 1953, primeiro ano do Ginásio. A estreia da turma C se dava justamente no semestre que aposentaria por tempo de serviço dois Mestres inesquecíveis: Nascentes, em Português, e Malba Tahan/Júlio César de Mello e Souza, em Matemática. A ausência de ambos na sequência do curso foi muito sentida. Cada um no seu estilo, eram professores sedutores de estilo e conhecimento. Suas aulas eram ricas de encantamento e saber. Desejo este mesmo sentimento de gratidão a todos os meninos e meninas, uniformizados ou não do C P II. Que tenham mestres inesquecíveis. Léo Christiano, Rio.
Fizeste da semiótica uma narrativa, aí nesse ensaio sobre o equívoco. Muito bom. Elizabeth Guimarães, Alegrete, RS
Querido Mário, não me equivoco em dizer que o seu texto está, como sempre, ótimo! Rodrigo Menezes, São Paulo
Adorei! Agora, que tal uma pequena aula particular “di grátis” sobre uso da crase? Eduardo Lorca, Rio
Resposta: Como o Fernando Sabino dizia que a crase não foi feita pra humilhar ninguém, já mandei a aula “di grátis” ao Dudu.
Bom dia, Mario. A frase: “A ideia é ser útil”, da Fiat, cairia como uma luva sobre a concessionária de transportes do Novo Leblon… Roberto Castro, Rio
Explicação: A brincadeirinha do amigo e vizinho Roberto refere-se ao fato que a empresa de ônibus que serve o Novo Leblon é a Útil, a mesma que nos idos de 1940 me levava de São Paulo para Santos ou São Vicente (suspiros).

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