Lula queixou-se – em relação ao seu pronunciamento quanto à cor dos cabelos – que o país está sem senso de humor.
Não é o meu caso, pois toda vez que ele fala de improviso, dispenso as minhas drágeas de diurético.
Desde a fundação do PT que desconfio da figura desse Lula da Silva.
Não tivesse eu o que fazer – e se fosse importante – faria um livro só com as contradições com as quais ele enfeita a sua biografia. Não são contradições de quem se aprimora com a idade, são contradições com as quais ele aprimora sua condição de animador, artista que tem um show ensaiado para cada platéia e mesmo com variantes, quando percebe que não está agradando.
Num pronunciamento para empresários, em São Paulo, o da Silva, além de retomar às suas pobres, mas divertidas metáforas, conseguiu, pela repercussão das mesmas, esclarecer de vez sua condição de camaleão a serviço do oportunismo.
“Se você conhecer uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque ela tem problemas”, disse o nosso loquaz terapeuta, não sei se dirigindo-se ao seu eleitor, ao Oscar Niemeyer ou ao seu proclamado amigo Fidel Castro. Quanto ao Fidel, que já sabemos enfrentando graves problemas de saúde, há que acrescentar os males do esquerdismo.
Certamente, não se referia aos também amigos Evo Morales ou Hugo Chavez, garotões de esquerda que só aguardam os cabelos brancos para a anunciada mudança de posições. Não sei se a CIA já avisou o Bush que se trata, apenas, de uma questão de tempo.
Diz o terapeuta-filósofo, especialista capilar, que os cabelos brancos afastam seus donos das idéias de esquerda. No entanto, omitiu a posição ideológica dos carecas de quem, para desgosto das minhas melenas, “elas gostam mais”.
O poeta Ferreira Gullar, exilado durante a ditadura, na experiência de seus 76 anos, também conhece a peça e a sua manha de fazer discursos oportunistas, para agradar platéias diferentes: “Amanhã ele vai dizer o contrário. O Lula diz qualquer coisa, a qualquer hora, dependendo do público que o assiste e da conveniência do momento. Ele nunca tem compromisso com coisa alguma, só com o poder”.
Já o filósofo Leandro Konder, um filósofo que pensa, registrou o besteirol do presidente do Brasil: “Lula ressuscitou uma besteira muito antiga ao associar juventude com esquerda e velhice com direita”.
Não satisfeito, o loquaz prossegue: “Eu fiquei vinte e tantos anos criticando o Delfim Neto e hoje sou amigo dele. É a evolução da espécie humana”.
Essa afirmação gerou minha dúvida: ou Lula se esqueceu que o ex-ministro foi um dos signatários do AI-5 ou alinha, agora, ao lado do coronel Jarbas Passarinho, que sempre afirmou que o Ato que transformou o Brasil num Estado assassino era necessário.
Outra dúvida: confessou-se Lula um darwinista, crente na teoria evolucionista e, pois, um descrente do pensamento criacionista. Nessa não me meto, é discussão para cachorro grande.
Confissão: Lula e eu somos brasileiros e temos, de acordo com ele, uma grande afinidade: nossas mães nasceram analfabetas. Quanto às afinidades, essas me bastam.
Há quem leve o camaleão a sério e a esses sugiro que façam como eu: há anos, quando pago impostos, fico feliz, pois sei que o couvert artístico está incluso.
Inté.

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