Porto Alegre, uma tarde de 1963.
Estava eu chefe de redação da Última Hora gaúcha e colunista de “Sem Censura”.
De repente, colocam sobre a minha mesa uma enorme cebola, tamanho de um coco grande.
De pé, à frente da mesa, um grande – tipo boxeur peso-pesado – padre de batina que, ao abrir a boca, percebi ser italiano ou descendente de.
Providenciada uma cadeira, ele começou a desfiar o seu, ou melhor, o calvário de sua paróquia, ou melhor ainda, de São José do Norte, município a pouco mais de 200 km de Porto Alegre, uma restinga hoje com 25 mil habitantes e cuja economia básica, na época, era a cebola que, até hoje, continua sendo um importante negócio local.
Explicou-me o padre que já havia começado a colheita do produto – relativamente perecível – sem viabilidade de comercialização, o que geraria uma catástrofe nos costumes locais, com o advento de homicídios, prostituição, alcoolismo e outras mazelas não menores.
Tratando-se a Última Hora de um veículo voltado para causas populares, solicitou-me o padre que, através de minha coluna, e com o apoio do jornal, além de divulgar o problema, solicitasse uma solução governamental, como atravessadora da compra e venda da produção ou mesmo sua compradora.
Coloquei o problema para a direção do jornal e começamos uma campanha, junto à Secretaria de Agricultura do Governo Meneghetti, que não resolveu nada.
Como Samuel Wainer, presidente e dono do jornal, era interlocutor permanente de Jango, então presidente da República, passei o problema para ele colocar junto à Presidência.
Sensível ao apelo, o presidente ordenou ao Ministério da Agricultura que comprasse a safra que acabou sendo exportada para o Uruguai.
Rio de Janeiro, 1985.
Estava eu subsíndico administrativo do Condomínio Novo Leblon, uma comunidade de casas e apartamentos na Barra da Tijuca, com uma população flutuante de cerca de 5 mil moradores quando, não sei como, caiu-me às mãos uma lei municipal que dava direito às comunidades fronteiras a terrenos ociosos da Prefeitura de criar hortas em benefício de seus habitantes.
Entusiasmei-me com a ideia de experimentar a reação da garotada, o então síndico Gilberto Ramos apoiou e parti para a execução de uma pequena horta. Convoquei minha amiga Zilka Salaberry – então a Dona Benta do Sítio do Picapau Amarelo, em exibição na Globo – para ser a madrinha do projeto, o que, inclusive, gerou notícias em alguns veículos de comunicação.
Sucesso absoluto junto a um número significativo de “pequenos agricultores” e, sem ser incomodado pela burocracia municipal impertinente, resolvi partir para um projeto mais ambicioso, ou seja, uma fazendinha.
Alimentado por livros sobre fazendas educativas da França, de lá trazidas por João Augusto Fortes – empresário hoje diretor do Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico –, conversei com amigos do condomínio que se entusiasmaram pelo projeto, mas meu mandato acabou.
Eleito síndico geral, o engenheiro Sylvio Queiroz, simpatizante do projeto, executou-o.
Hoje, quase 30 anos depois, cavalo, vaca, aves diversas, cabritos, etc. justificam aquilo que disse à Globo, quando, na inauguração da fazendinha, fui indagado sobre o objetivo do projeto:
– É para a criançada saber que ovo não nasce na geladeira.
Estou contando essas histórias, que fazem parte do acervo positivo da minha existência, para lembrar que a vida propicia à gente a oportunidade de ser útil.
Ser útil já é uma boa explicação para existir.
Inté.
Vitrine (Comentários dos leitores)
De Circe Aguiar, Rio, sobre a coluna Deboche, publicada em 03.09:
Mário, também adoro um deboche, srrsr. Desde que me entendo por gente, escuto que o Brasil é o país das maravilhas, o país do futuro. Antigamente, até dava pra acreditar nesse papo fascista, mas agora que tanta gente pode conhecer o mundo, é muita forçação de barra jogar esse canto de sereia pra cima da gente. Isso só cola pra miserável, ou seja, a maioria dos eleitores. Bjx. Circe Aguiar, Rio
Sobre a coluna de 17.09, A propósito…:
Mario, você fez muito bem em publicar de novo o texto em que registra a atitude elegantemente vergonhosa e piedosa do então magistrado Carlos Veloso. O clima hoje não está muito para esse tipo de final, salvo engano. Estou vendo xilindró geral com prazos variados. A meninada vai sair às ruas explodindo de indignação, caso o resultado seja diferente. O longo tempo em “cena aberta” pede um final triunfante de Justiça. Jogaram toda a bomba nas costas do Negão mais uma vez e ele está resistindo estoicamente às dores. Está fazendo seu papel com segurança, serenidade, competência e justiça. O País merece o desempenho do STF de hoje. Já era tempo. Abração, Léo Christiano, Rio.
Mario, concordo inteiramente. Aleluia! Gilberto Ramos, Rio
Bom dia, Mano. Belo artigo. Parabéns. Coelho, São Paulo

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