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Ilha e ilhas

Rachel, a filha com 10 meses, Aurea, trazendo Carla ainda na barriga, e eu, em 31 de agosto de 1979, mais uma empregada, a …

Rachel, a filha com 10 meses, Aurea, trazendo Carla ainda na barriga, e eu, em 31 de agosto de 1979, mais uma empregada, a filha da empregada e uma babá desembarcamos no Condomínio Novo Leblon, uma ilha de areia de 600 mil metros quadrados – urbanizada – no Km 7,5 da Avenida das Américas, onde o único comércio mais próximo era o Carrefour, a 3 km de distância. O BarraShopping só abriria dois anos depois.

Os sete edifícios construídos somavam 960 apartamentos com garagens, piscinas, playgrounds e salões de festas. Duzentos lotes aguardavam suas futuras residências.

 O pessoal da Rede Globo e da Fundação Roberto Marinho dizia que havia me mudado para o fim do mundo e eu replicava que, em 20 minutos, eu estava na Gávea e a 10 minutos da Globo, ou seja, longe na distância e perto no tempo, pois chegava ao trabalho mais rápido de quem morava na Tijuca, por exemplo.

Hoje, a Aurea trabalha na IBM, em Botafogo, e leva quase sempre 4 horas para ir ao trabalho e voltar.  Foi-se o tempo do lazer diário. Jogam-se pela janela horas que já foram úteis  para se viver. Hoje, um tempo irresgatável.

O problema do trânsito não é só na Barra e, há décadas, um serviço de helicóptero, de segunda a sexta-feira, de manhã e no início da noite, monitora os motoristas para as melhores e piores opções de tráfego no Rio.

Mudar, para nós, é impensável, assim como sair do Novo Leblon onde fincamos raízes por 34 anos está fora de cogitações. Nesse aspecto, resta viver uma realidade difícil de viver.

Outro dia, uma curiosidade esportiva em relação à notória qualificação da equipe de futsal da cidade da Carlos Barbosa, no Rio Grande do Sul, levou-me à Internet para saber, afinal, que cidade é aquela.

Confesso que tive um surto de euforia ao descobrir que aquela cidade, encravada na região gaúcha da uva, com seus 25.192 habitantes e uma densidade demográfica de 109,6 hab/km² (Censo 2010), ostenta uma taxa zero de analfabetismo. Zero! 

Outros índices daquela cidade majoritariamente industrial são de encher o peito de orgulho de qualquer brasileiro que conhece os bolsões de miséria espalhados por todo o território nacional.

Carlos Barbosa ocupava em 2000 o 3º lugar no Estado no índice de desenvolvimento humano (ONU 0,858) e 11º lugar no País, ou seja, entre mais de 5.500 municípios, e 2ª colocada no ranking de distribuição de renda no Brasil (Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas – 2011).

Estes números explicam a caracterização do Brasil como um arquipélago cultural, assim definido por Viana Moog antes mesmo do decreto de Leonel Brizola que, em 1959, criou o município de Carlos Barbosa, em segmentos de áreas até então de Garibaldi, Montenegro e São Sebastião do Caí.

Por ser a cidade-sede da Tramontina e um grande produtor de queijos, dizem seus habitantes que Carlos Barbosa é a cidade que tem a faca e o queijo na mão.

Não há dúvidas que Carlos Barbosa, neste arquipélago, é um fenômeno, e sua taxa zero de analfabetismo indica, como óbvio, que a base desses números todos assenta na educação, atividade prioritária e compulsória de uma nação que se pretenda crescer como tal.

Inté.

Vitrine (Comentários dos leitores)

Ao pé da coluna

Viagem biográfica – “Mario, para quem deixou de curti-lo ao vivo e em cores, após sua mudança para a gaucholândia, satisfazendo-se com lembranças da juventude, este seu “revival” é uma delícia e nos vai atualizando aos poucos (se o Viajando tiver um segundo, terceiro etc. textos) até que cheguemos não mais virtualmente ou em sonhos, aos dias de hoje. Luiz Fernando Di Vernieri, Campinas, SP

Boa… obrigado! Rodrigo A. Sá Menezes, São Paulo

Mario, não sabia que vc chegou ao Condomínio através do Leopoldo/Sônia, meus ex-vizinhos de prédio (Masaccio). Era comum filar um whisky dele na piscina e, mais ainda, fazer da sua história no condomínio a minha, afinal, acho que nossas famílias estão parelhas no tempo. Abraços. Aderbal Moura, Rio

Queridos Aurea e Mario. Quero agradecer as mensagens maravilhosas enviadas em 2012, numa viva mistura de nostalgia e indignação, de que resulta essa permanente declaração de amor à vida. Um grande abraço para vocês todos, dessa linda família. Modesto Carvalhosa, São Paulo

Mario, até onde minha memória alcança, estamos com algumas coincidências. Senão vejamos : você morou em Porto Alegre e eu trabalhei lá. A Aurea trabalhou na IBM, na Pres. Vargas, e, olha eu aí de novo (isto foi entre 1966 e 1969, e eu trabalhava no Bureau de Serviços, no térreo, esquina com Uruguaiana). Algum amigo mostrou o Novo Leblon para você e o mesmo sucedeu comigo. Da mesma maneira, depois de algumas visitas ao Novo Leblon, acabamos por nos mudar também. Se você foi coordenador da sinuca (não lembro mais), taí mais uma coincidência. Abs, Claudio Fischgold, Rio

Boa… obrigado! Rodrigo A. Sá Menezes, São Paulo

Boa… obrigado! Rodrigo A. Sá Menezes, São Paulo

Autor

Mario de Almeida

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