?
Nem sabia o que acontecia. Desconfiava que a terra estava girando mais depressa que o normal. Ou seria apenas sua cabeça que girava, girava sem parar?
Reparou que seu corpo, da cintura para baixo, girava mais rápido que a parte superior. Com paciência, resolveu aguardar que o tronco e os membros inferiores se reencontrassem.
Tentou consultar o relógio, mas o braço esquerdo não era encontrado pelos olhos, pois cabeça e braços giravam em tempos diferentes.
Resolveu fixar as costas na parede, mas o peito chegou antes das costas. Não demorou, as costas chegaram e o peito foi girar alhures.
Tudo girava e ele ficou com medo que a terra houvesse cansado dos homens e exigisse: “Respeito ou Morte!”
Caso a terra houvesse parado de girar, coisas e pessoas estavam condenadas a girar? Assustou-se com a possibilidade do planeta tentar resgatar tudo que lhe fora roubado e destruído.
Seria possível reunir continentes separados há trilhões de anos?
E as florestas? Como reinstalar todo o arvoredo arrancado? E os ares, o aquecimento?
Desistiu de pensar. Missão impossível. Resolveu entrar no giro da loucura e escrever.
Impossível articular pensamento e escrita. Só pensou.
Frustração
Foi colocar o oco no bolso, mas estava lotado.
Impotência
Queria escrever um verso e o verso não deixava.
Memória
Ameaçou a infância e exigiu que contasse tudo.
Escrúpulo
Não beijou, achou que era um manifesto perigoso de assinar.
Percepção
A bolha de sabão se desfazia como um sonho morto.
Madrugada
Ouviu a cotovia e achou que um dos dois estava de porre. Ou ambos.
***
??
Colocou a xícara de chá na mesa e com um guardanapo acabou de limpar os lábios dos resquícios do sonho que comera. Sentada à mesa da confeitaria, levantou os olhos para o vulto à sua frente e não escondeu a surpresa:
– Flávio?!
– Sim, Flávio, confirmou sentando-se.
– Mas como você está moço!
– É difícil explicar…
– Mas, espera… Flávio Dias Cardoso?
– Isso mesmo, o Vinho da Cândido Mendes…
– Não estou entendendo… mas…
– Nem pode…
– Mas espera, você não…
– Morri, Isabela, morri há 22 anos…
– E como?… Não entendo…
– Nem tente… você está esperando o Gurgel?
– Sim… como você sabe?
– O Gurgel não vem.
– Você morreu, o Gurgel não vem… acho que enlouqueci…
– Não Isabela, você não enlouqueceu. O Gurgel morreu…
– O Gurgel? Não… não! Há meia-hora falei com ele pelo celular…
– Pois é… não faz 15 minutos que o Gurgel teve um enfarte… já chegou morto no Pró Cardíaco.
– Não entendo… mas…
– Não dá para explicar. Mal falei com ele, estava muito aflito… queria avisar que não podia vir encontrar você… eu disse que iria tentar…
– Não entendo nada … e cada vez entendo menos…
– Isabela, meu tempo vai acabar… Naquele sábado de Carnaval em que íamos viajar fui preso por engano. Coisas da ditadura. Foram 9 dias até que descobrissem o equívoco…
– E eu pensei…
– … que fosse por causa da gravidez. Você trancou matrícula, escondeu-se, nunca me deixou explicar…
– Não li os seus bilhetes… rasguei todos… fui para Minas… fiz aborto…
– Eu tive que me mudar para São Paulo… nunca mais voltei… Soube de você e do Gurgel…
– Gurgel me deu força… Um ano depois nos casamos…
– Eu morri de cigarro… câncer…
Isabela abriu a bolsa, à cata do seu lencinho. Quando o achou, não havia mais ninguém à sua frente.
O celular tocou.
– É dona Isabela Freitas Gurgel?
– Sim.
– Aqui é do Pró Cardíaco…
***
???
Indignado porque político corrupto não se suicidava, suicidou-se.
Inté.

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