Capítulo II
Ora, para os terapeutas da Máster e Johnson, a aridez provocada pelo excesso de segurança, combinada com a solidão do tédio, não desestabiliza um casamento, mas, juntos ou isoladamente, estes fatores agem como cupins, ao manterem a aparência das coisas, enquanto devoram suas entranhas até restar o vazio. Neste cenário de aflição, Máster e Johnson propunham ao casal um ato de “infidelidade consentida”, mas fora do controle do conjugues, como forma de resgatar a paixão e as fantasias perdidas.
Havendo interesse, o casal assinava um documento em que aceitava os protocolos e os procedimentos ditados pela clínica. Sob consenso, marido e mulher fariam sexo seguro com parceiros de sexo oposto, respectivamente, em dia e horário incerto e não sabido tanto por ele como por ela. Tais critérios asseguravam o “programa de desinibição”, dentro do “planejamento do risco”, ou algum outro eufemismo, não recordo agora. De fato, defendiam ideia de que era imprescindível, tanto o marido como a mulher, sentirem-se totalmente livres durante o experimento.
O mundo ainda estava vivendo sob a atmosfera da era de Aquarius, eram os tempos de um desbunde (palavra da época) com retórica, com atitudes sexopacifistas de extrema “permissividade”, entre aspas, porque não havia a prerrogativa moralista que esta palavra adquiriu mais tarde.
Todo mundo transava com todo mundo, por ser um ato de amor em oposição à guerra, sobre tudo e sobre todos pairava a fraternidade do sorriso inocente, de uma flor oferecida na ponta dos dedos e um certo charme existencialista. Somente por causa deste ambiente sociocultural, “viva e deixe viver”, a Clínica Máster e Johnson não foi processada por suas práticas, no mínimo, como direi, amalucadas.
E porque em data e hora não sabida? Este é o caroço do angu. O relato (que faço agora) é ficcional, há muito que não tenho mais o livro, mas restou a memória do modo como as práticas eram descritas, sempre com codinomes, vejamos.
Quando o senhor Wriht conheceu aquela que seria sua esposa, o então jovem sedutor tomou-se de paixão irremediável por aquela mulher. Em parte por seu rosto, seu corpo, pelas afinidades, mas alguma coisa em sua natureza feminina o deixou atordoado. O que seria? Óh, sim, foi na cama, o jeito dela se mexer, a musicalidade da voz, o olhar em transe, a languidez dos seus gestos suspensos no éter, e depois, do éter para a realidade do quarto, da cama. Como já foi dito, ficara atordoado. Na mesma hora a pediu em casamento.
Muitos anos depois, a velha chama se apagara por completo. Determinados a salvar o casamento procuraram a Clínica Máster e Johnson. Ele entrou naquela história porque estava entediado,e, em parte, empurrado por ela. Agora estava ali, acomodado diante de uma abertura de vidro, podia observar o que se passava no aposento ao lado. Do outro lado, era como se fosse um espelho na parede do quarto, e sua mulher não sabia que ele estava ali. O Sr. Wriht viu quando ela entrou, despiu-se e entregou-se em carícias preliminares com o funcionário da clínica. Depois, com a boca seca e o coração acelerado viu (e podia ouvir) o jeito dela se mexer, a musicalidade da voz, o olhar em transe, a languidez dos seus gestos suspensos no éter. Aquela não era a pudica e respeitável senhora mãe dos seus filhos, por quem, há muito, não tinha nenhum interesse sexual. Não, não e não. Aquela que ali estava era a sua gazela, a criatura que o enfeitiçou, isso lá atrás, no período paleolítico da relação.
Não teve ciúmes porque, afinal, o funcionário estava fazendo seu serviço, e ela fez o combinado: nada mais.
Depois da experiência, enfeitiçado novamente ele a pediu em casamento outra vez, queria a sua gazela de volta. Recasaram-se, com o testemunho dos filhos, tiveram muitos e muitos netos e foram felizes.
Não sei não, mas se a experiência fosse no Brasil, em primeiro lugar o sujeito ia tomar umas cinco caipirinhas para “criar coragem”. Depois, completamente embriagado, esmurraria a porta do quarto gritando que safado nenhum iria traçar a mulher dele. E se o terapeuta tentasse interceder, o bicho iria pegar, arriscaria apanhar, ah sim, para aprender a não bancar o moderninho com a mulher dos outros.
“Pra pegá a minha mãe têm cem, para dá pro o meu pai, ninguém”- diria depois para um amigo, com a língua enrolada, ja no oitavo chopp. E eu assinaria embaixo, ele estaria coberto de razão.

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