Saindo da linha – “Precisou de uma rasteira do computador para que eu pudesse ler em sua coluna algo ligado a políticos. Sabe, querido Mário, faz falta. De vez em quando é bom! Misturado com história ainda é melhor. Não parabenizo que é pra não encher muito a sua bola, mas que você merece, merece.”
(Luiz Fernando Di Vernieri)
Dormelindo, creio que quase 70 anos de amizade recíproca, dá direito ao uso do apelido que vem das chamadas priscas eras.
Você me cobra crônicas sobre política e eu vou explicar que não posso mais.
Em meu livro Almanaque do Camaleão, justifico a ausência de textos políticos com uma verdade que não pede provas, posto que evidentes: “para não baixar o nível”.
Acrescento que não posso escrever sobre aquilo que há muito deixou de ser revolta e passou a ser náusea.
O dramaturgo francês Jean Anouilh, na introdução de sua versão de Antígona, de Sófocles, afirma que “a tragédia é repousante porque não há o mínimo de esperança”.
Em relação ao nosso país, vivo, já há algum tempo, em absoluto estado de repouso. Ainda, Anouilh: “Somos fiéis a nós próprios, nada mais”.
Coerência, amigo, não me falta, pois essa ausência de esperança cívica foi preenchida por um estado permanente de alegria, síntese da busca existencial que, por ser conseguida, não convém ser molestada. O eu cansou-se da cidadania e nem suspirou por ela.
Semana passada, em O Globo, confessando-se deprimido, Arnaldo Jabor jogou a toalha e se disse isento de qualquer esperança. Nossa diferença é que a depressão não me habita desde há muito, pois não careço desse tipo de esperança. Acho que essa realidade que está aí é um convite para você não se deixar contaminar. Ninguém precisa ser um ente coletivo, é uma opção, assim como pretender ser único, é outra.
Di Vernieri, agora a minha confissão crucial: não acredito neste Brasil com cerca de 20 milhões de analfabetos e menos de 50% de domicílios ligados a uma rede de esgotos. Metade do Brasil é uma fossa aberta e tem brasileiro que desvia para o bolso verbas para ambulâncias. O Brasil tem 20 milhões de favelados e 2 milhões dos chamados moradores de rua, que eu prefiro chamar mesmo de desgraçados.
Um pouquinho de brasileiro e de política: Sarney preside o Congresso, Fernando Collor é senador e Paulo Salim Maluf, caçado pela Interpol, é deputado federal. Passes de mágica? Exceções? Não, três espécimes democraticamente (sic) eleitas, ou seja, consagradas por parcelas de brasileiros. E o Tiririca (?): “Vote Tiririca, pior que tá não fica.” Tu achas que nojo é pouco? Eu acho.
Convenhamos que ser político, viver a política ou escrever sobre política são formas de fazer política. Para se fazer política, mesmo que seja apenas uma trêmula luz no fim do túnel, é preciso acreditar que essa luz existe. Não o creio. Fazer política, é um ato de esperança, inda que remota.
O brasileiro, a justiça, a corrupção e a punição: Zuenir Ventura, em O Globo da semana passada, com base em pesquisa dos professores Gico Junior e Carlos Higino Ribeiro de Alencar, divulga que é muito baixa a probabilidade de um servidor público ser preso e de ter que devolver os bens e valores desviados e que menos de 5% dos envolvidos são punidos. “Das 441 demissões por corrupção ocorridas no governo federal num período de 12 anos, os professores constataram que apenas 107 sofreram ação de improbidade na Justiça: desses, somente 14 foram penalizados; ou seja, 3,17% do total.”
Respeito à vida: das maiores taxas de homicídio no mundo e distante, muito, muito distante das taxas europeias dos países ditos civilizados. O Brasil ainda lidera o ranking de assassinatos no planeta, em números absolutos. São 46 mil homicídios por ano, em média. Mas, em termos proporcionais, deixou de encabeçar esse campeonato macabro. O Brasil ocupa hoje o sexto lugar na taxa de homicídios por 100 mil habitantes, num ranking de 91 países. A média é de 25 assassinatos por 100 mil habitantes. Fomos superados em violência, nos últimos anos, por El Salvador, Colômbia, Guatemala, Ilhas Virgens Americanas e Venezuela. Hilário? Tragicômico? Não. Trágico.
O escândalo do mensalão aconteceu há sete anos. O escândalo atual é que mais de seus 30 criminosos gozam os mesmos sete anos de liberdade… Esse tipo de impunidade é apenas um exemplo. É esse o nosso Estado de Direito.
Di Vernieri, se você conhece um indivíduo que gosta de levar vantagem em tudo; dirige carro falando no celular; usa o celular onde não deve, em voz alta; joga lixo na rua etc. etc. etc., você conhece, pelo menos, um dos milhões de cidadãos brasileiros classe/média que votaram no Sarney, no Collor, no Maluf, os que preferiram o Tiririca e que ainda reclamam de tudo.
Esse é meu habitat e eu, que nunca quis ser rico e nunca fui, tenho uma jóia que, apesar de muito usada e estar agregada à alegria de viver, vale uma fortuna: o passaporte.
Abração e inté.
Vitrine (comentário sobre a coluna anterior)
Mario Jovem, mais esta vez Obrigado. Moisés Andrade, arquiteto, Olinda/Recife
Muito interessante! Adorei a expressão “Nu de palavras” Beijokas amigo! Claudia Almeida, Rio
Mario, seu texto de hoje é uma metralhadora giratória cheia de elegância e estilo. Mata, sem perder a classe. Tal como nas Alagoas… Rodrigo A. Sá Menezes, publicitário, São Paulo
Grande Mario de Almeida, como vai? Mas, claro, não é qualquer engolida de computador que vai impedir você de fazer uma crônica melhor que a outra. Uma das melhores coisas de viver bem e bastante é isso: experiência pra safar a onça (ou safar-se da dita cuja…). Abração, Juvenal Azevedo, publicitário, jornalista, São Paulo
Ao pé da coluna
Luiz Fernando Di Venieri – Campinas/SP/Brasil. 14/05/2012
Saindo da linha – “Precisou de uma rasteira do computador para que eu pudesse ler em sua coluna algo ligado a políticos. Sabe, querido Mário, faz falta. De vez em quando é bom! Misturado com história ainda é melhor. Não parabenizo que é pra não encher muito a sua bola, mas que você merece, merece.”

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