Joca — Dois anos em Brasília…
Manuel — E poderiam ser 100, Joca…
J — Como assim, Manuel?
M — Ninguém imagina o jogo de interesses, de todos os interesses. Menos os do povo, é claro…
J — Mas Manuel, nós temos o voto…
M — Com esse Congresso, mesma coisa que não ter nada…
J — O voto é a nossa arma.
M — Arma de aceitar, Joca, arma de aceitar. O voto é a forma de calar a nossa boca.
J — Então nós não temos nada?
M — Quase isso, quase isso. Apenas um pouco mais.
J — O quê, Manuel?
M — Já temos a consciência de que não temos nada!
(O Despacho, 1961 M.A.)
Quinta-feira, 9. Hoje tá bravo.
Sentei-me no computador para escrever esta crônica e cadê um assunto? Sinto-me um brasileiro perdido num deserto de ideias.
Tentemos: Porto Alegre, dezembro de 1960, Teatro de Equipe, do qual eu era o diretor geral, de férias, peguei um avião e fui passar as festas com a família, em São Paulo. Natal festejado, aviso meu pai que ia voltar:
-Ué, e o réveillon?
– Não vai dar, estou com uma peça de teatro na cabeça que preciso passar para o papel. Vou me trancar no teatro vazio e trabalhar nisso.
Trabalhando umas 12 horas por dia, cumpri a autopromessa em menos de trinta dias e percebi o tamanho do desafio, pois mais de 30 personagens exigiriam, no mínimo, uns 15 intérpretes.
Convoquei pela imprensa gente que poderia se interessar em fazer testes para preencher o elenco, e uns 30 dias depois, com uma equipe mista de 16 pessoas, dei início à direção da farsa.
Negócio seguinte: em 3 de outubro de 1960, Jânio Quadros, candidato de uma grande coligação de partidos, foi eleito presidente da República.
Eu, que acompanhava a carreira de Jânio desde seu início – um vereador que cultivava caspas – deputado, prefeito da capital e governador do estado, achava-o um poço de demagogia com grande carisma popular.
Eu achava que sua eleição fizera o país embarcar numa grande canoa furada. Jânio foi empossado em 31 de janeiro de 1961, e eu aproveitei o momento para retratar o país numa farsa debochada e radical: O Despacho, aquele com galinha e cachaça da macumba.
Não vou tentar resumir aqui um espetáculo de duas horas e quinze de duração, mas há um detalhe criativo que quero registrar: quando os espectadores chegavam, era dito que, por problemas, o programa só seria entregue depois. No intervalo, alguns atores, como jornaleiros, distribuíam para a plateia uma “edição extra da Última Hora”, contando que o personagem principal, depois de um mandato de vereador, fora eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro.
Esse jornal dava notícias importantes, mas que, se tratadas em cena, consumiriam um tempo desnecessário para a ação dramática.
Ao final do espetáculo, quando haveria uma eleição presidencial, locutores de rádio e TV noticiavam um caos político que sugeria uma revolução.
Em 18 de julho, O Despacho estreava e, em 25 de agosto, Jânio renunciava. Leonel Brizola, governador do Rio Grande, mobilizou a massa para garantir a posse de João Goulart, vice-presidente eleito, mas vetado pelos militares. Nasce o movimento conhecido como Legalidade, e o espetáculo sai de cena para o teatro dar lugar ao Comitê de Artistas e Intelectuais pró-Legalidade, e eu era objeto de brincadeiras como o profeta que sabia o resultado do Grenal ou que bicho iria dar.
Resolvido o impasse, através da posse de João Goulart como presidente de um estado parlamentarista, O Despacho voltou a cartaz e, face à sua repercussão, havia um padre que todo domingo pedia na missa que os fiéis não assistissem ao Despacho.
Brizola pediu uma apresentação especial, à qual assistiu, depois pediu minha ida ao Palácio e aventou a hipótese do Equipe apresentar-se em São Paulo, Rio e Brasília, o que não aconteceu, pois grande parte do elenco tinha outros compromissos, limitando-nos a apresentações em sindicatos e em algumas cidades do interior do Rio Grande.
Aldo Obino, então crítico teatral do Correio do Povo, de Porto Alegre, no seu linguajar personalíssimo, assim concluiu sua crítica ao espetáculo:
“Sátira vivaz, solerte, desacatante, provocadora, de cinismo satirizante, eis o que é essa peça que diverte, confunde e é afrontosa em seu criticismo corrosivo”.
E, aqui, eu concluo essa tentativa de cumprir com o meu dever.
Inté.
Vitrine (comentários dos leitores)
Mario, posso estar enganado, mas não acredito num Ulysses com veia poética ao ponto de produzir tamanha ‘pérola’ sobre Tancredo. Teve ‘Ghost’ aí… Roberto Castro, Rio.

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