A maior dor do vento é não ser colorido
ttt(Mario Quintana)
Já li um montão de crônicas sobre a falta de assunto e não se assuste que não vem aí mais uma. Os assuntos são muitos e estou na dúvida por onde começar. Decido começar com as minhas mãos à palmatória, pois em Coletiva e outros veículos já escrevi que para o universo dos meus interesses, Paulo Coelho morreu junto com seu grande parceiro, Raul Seixas. Então, antes de me submeter à penalização, cumpre esclarecer que nesse universo de interesses não entram auto-ajuda, misticismo e esoterismo. Para um agnóstico radical – e eu sou – esses assuntos carecem de interesse. Hoje, 30 de janeiro, passando os olhos na coluna dominical do escritor em O Globo, parei e a li inteira, pois o cerne da coluna, o mundo lingüístico, sempre me interessou e interessa muito.
Conta o imortal que um domingo, na Armênia, foi, contra a vontade, levado pelos anfitriões a uma igreja, numa pequena cidade, ele que queria ir ao mercado aproveitar para conhecer gente, como assim fez o poeta cubano, Nicolás Guillén, em 1961, ao passar apenas 20 horas em Porto Alegre. O mercado estava fechado e lá foi ele, desanimado, para a tal cidade, onde foi recebido por membros da União dos Escritores, que lhe entregaram uma flor e o conduziram para um túmulo, atrás do altar da igreja. Lá, finalmente, ficou sabendo ser o túmulo de São Mesrob, o Santo Tradutor. Ele escreve, nessa crônica – Torre de Babel – de sua emoção, pois sabia ser o santo o criador do alfabeto armênio, até então um idioma apenas oral.
Esse Santo Tradutor me remeteu direto à Coleção Nobel, da antiga Editora Globo, e a todos aqueles autores cujos idiomas eu jamais aprendi. Não tenho à mínima idéia de quanto fiquei devendo a Rachel de Queiroz pelas suas traduções de Dostoievski ou a Mario Quintana, pelo Proust, que não me arrisquei a ler no original e buscar depois o tempo perdido. Aliás, tenho a impressão que os brasileiros “redescobriram” o Quintana, pois só neste janeiro que agoniza recebi 4 e-mails carregados dele. E o centenário do nascimento desse filho do Alegrete será comemorado ainda no ano que vem, pois,, neste, as homenagens pelo mesmo motivo são para seu companheiro de letras e da Globo, Erico Verissimo. Quintana, numa divertida auto-biografia, confessa que o maior acontecimento de sua vida foi o nascimento e chama a atenção para o fato que ele, Erico e Carlos Drummond de Andrade tinham no passado um elo comum: o balcão de farmácia.
Minha dívida com Quintana aumentou nesta semana. Catando frases do poeta sobre o vento, elemento constante em sua obra, ele me remeteu ao norte-americano Ambroise Bierce, de quem havia me esquecido total e a quem devo, no passado bem passado, a leitura de admiráveis contos e muitas gargalhadas. Bierce (Ohio 1842, México 1914?) foi um figuraço e nada, instituições e pessoas, escapou de sua pena crítica e mordaz. Não poupou nem a si mesmo quando escreveu: sozinho é estar em má companhia. Nas antologias dos contos americanos Bierce é presença constante e influenciou grandes escritores latino-americanos como o argentino Jorge Luis Borges. Aos 71 anos Bierce foi, como jornalista, cobrir a Guerra Civil no México e desapareceu. São dele essas brilhantes definições:
Otimismo é a doutrina em que tudo é bonito, inclusive o que é feio, tudo é bom, inclusive o que é ruim, e tudo bem que seja errado… Isso é hereditário, mas felizmente não contagioso.
Egoísta – Uma pessoa de mau gosto, mais interessado nele próprio do que em mim.
Estatística – É a ciência graças à qual se eu comi um frango e tu não comeste nenhum, teremos comido, em média, meio frango cada um.
Experiência – É quando renunciamos aos erros da juventude para substituí-los pelos da idade.
Festa – É uma reunião de pessoas absolutamente sociáveis que acabaram de tomar banho e trocar de roupa.
Maturidade – Período da vida entre a idiotice da infância e a bobeira da velhice.
Meia-idade – É quando você tem duas escolhas, e prefere chegar em casa mais cedo.
Nascimento – É a conseqüência de uma inconseqüência.
Inté
PS. Para ler a crônica do Paulo Coelho acesse www.oglobo.com.br, colunistas.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores de “64 Para não esquecer” (Literalis).

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