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Livre associação pode liquidar uma crônica

Quando vou escrever o que faço, na verdade, é juntar as palavras umas ao lado das outras, desde que faça algum sentido. Como o …

Quando vou escrever o que faço, na verdade, é juntar as palavras umas ao lado das outras, desde que faça algum sentido. Como o sentido não surge tão facilmente, fico ali, procurando algo na região mais visível do cérebro, o chamado consciente. Geralmente no meu consciente surge uma quantidade enorme de compromissos e coisas para fazer, contas para pagar, o ótimo filme que está em cartaz e eu ainda não fui ver, e a goteira da pia que não consertei. Enfim, assuntos imprestáveis para escrever e publicar. Passada esta investida, costumo jogar duro. Desço as escadas e vou para os porões do inconsciente, num processo de livre associações, aí a barra fica pesada. Surge um emaranhado de imagens e, não sei por que, com muita frequência me deparo com o Coelho Pernalonga. Então lembro que morava numa toca, toca me lembra os labirintos de Creta, e os labirintos, o Minotauro, aquele gigante com cabeça de boi, e as guampas do Minotauro me fazem lembrar de um amigo casado com uma mulher que me fazia lembrar a madrasta da Cinderela que, por sua vez, o traiu. Que curioso, ela era muito má para ele, mas ele a amava assim mesmo. Era exatamente sobre isso que queria escrever. Precisei me aprofundar na maçaroca da livre associação para lembrar que queria escrever sobre a questão da infidelidade. Sobre por que as mulheres e os homens traem, e por que a sociedade é tolerante e até justifica e premia o marido infiel. Mas quando ele é traído, pronto. Vira vilão, é demonizado, torna-se objeto do escárnio público. Deveria ser o contrário. Ele deveria ser castigado quando trai e não quando é traído, coitado. Epa, a palavra coitado me fez lembrar de coito, coito de sexo, óbvio, e logo de Sexus, Plexus e Nexus, de Henry Miller. O autor da trilogia que mais tarde a chamou de “A crucificação encarnada” declarou numa entrevista ter vencido o vício de fumar mastigando cenoura crua. Bah, cenoura crua me fez lembrar do Coelho Pernalonga outra vez. Tá certo, velhinho, concordo, assim não dá.

 

Autor

Paulo Tiaraju

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