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Ontem foi o Dia das Mães e eu me lembrei que o assunto poderia ser muito bem aproveitado por este escriba que, desde que …

Ontem foi o Dia das Mães e eu me lembrei que o assunto poderia ser muito bem aproveitado por este escriba que, desde que apanhado por uma depressão brava, começou a ter muita dificuldade para escolher um tema e escrever esta coluna.

Não quero falar sobre a minha mãe, que se foi cedo, pois as dores, quanto mais doídas, são as mais íntimas, são aquelas que não conseguem um texto para se exprimirem. São as dores incomunicáveis, as que dispensam interlocutores.

Já escrevi tanto, em livro e em crônicas, sobre o Dia das Mães que esgotei o assunto para mim mesmo. Portanto, o Dia das Mães, que chegou ao Brasil pelas mãos do escritor Álvaro Moreira e até ganhou um decreto do Getúlio, está fora.

Já escrevi por aí que Ema, uma parteira francesa, pusera-me no mundo havia poucos dias quando surgiu em casa, em Campinas, uma negrinha retinta, analfabeta e com aproximados 17 anos.

Francisca – a nossa Chica – ajudou minha mãe a criar os seus quatro filhos e, depois, ajudou minha irmã Célia a criar os meus quatro sobrinhos.

Chica, que se foi há algum tempo, em Ribeirão Preto, para onde foi com Célia, nunca reclamou de nada, nunca namorou, era Filha de Maria, vivia para a nossa família e conversava com todos os bichos e plantas.

Quando eu era jovem, tentei alfabetizá-la. Depois da janta, eu dava a aula e ela aprendia tudo. Dia seguinte, era como se não tivesse acontecido nada, esquecera tudo.

Comentando o fato numa roda do meu pai, onde estava um médico, ele afirmou que eu podia desistir, pois ela sofria de uma doença causada por ausência de proteína na infância. Chica morreu analfabeta.

Quando eu tinha uns 15 anos, levei um susto ao ler esse poema de Manuel Bandeira, pois o poeta também tivera a suprema graça de ter uma Chica em sua vida, no caso, Irene.

Irene no Céu 

Irene preta

Irene boa

Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:

– Licença, meu branco!

E São Pedro bonachão:

– Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Pelo fato de ter tido uma mãe preta, já escrevi que eu deveria ser mulato. Manuel Bandeira também deveria. 

Inté.

(A coluna foi publicada originalmente em 13/05/2013)

Autor

Mario de Almeida

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