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Mais estórias do Bom Fim

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“Ainda ouço ecos de sinos distantes

Nos meus ouvidos de antigamente.”

Mario Quintana.

De volta para casa, pelos caminhos do Bom Fim, às vezes eu me aventurava por um trajeto diferente. Era quando enfrentava a “lomba” da Ramiro Barcellos, mas suando frio, pois aquele era o território do Eurico Dentuço e sua turma. Eram uns moleques que incomodavam a vizinhança, jogavam pedras nas lâmpadas dos postes e até botaram fogo no rabo do gato de Dona Armênia, que morava em um sobrado na rua Cabral.

***

No meu quarteirão, as coisas eram mais tranquilas. Tinha meus amigos nos altos da Castro Alves e na quadra de baixo da Felipe Camarão. Ainda lembro do nome de muitos deles: o Arno Dreher, um alemão que morava em uma casa com jardim na Castro Alves. Era vizinho do Heitor que rodava o bairro com sua bicicleta de oito marchas. 

Na esquina de baixo, havia o judeu David, que dividia comigo uns doces de mel e amendoas que eram de lamber os dedos. Era uma das especialidades de Dona Bertha, do mercadinho ao lado do Armazém Vasco, onde havia um gringuinho esperto, que fazia entregas no bairro. Ele sabia como fazer estilingues com retalhos de borracha de pneus e forquilha de ferro, que vendia por um punhado de moedas, mas não topou trocar por minhas bolitas de gude nem pelo álbum de figurinhas do Vingador.

Na vizinhança moravam moças de família, que só saiam de casa com a mãe ou com uma das tias. Eram gurias jeitosas, sempre bem vestidas e penteadas, que ganhavam assobios e olhares compridos. Mas os guris queriam mais e ficavam alvoroçados quando aparecia uma empregadinha mais faceira, daquelas que gostavam de ouvir os fiu-fius. Os mais animados da rua eram dois irmãos, o Elias e o Daniel que apesar dos nomes de profetas, aprontavam como ninguém. Foram eles que me ensinaram a subir no muro alto do 305 para espiar a mulatinha Cacilda lavar o pátio com a saia erguida até o meio das coxas. 

***

Em dia claro de primavera as coisas começaram a mudar no bairro. De manhã cedo correu a notícia que uma família rica dos Moinhos de Ventos havia se mudado para a Vila Olga, o casarão branco da Casemiro de Abreu.

Foi quando avistei pela primeira vez a moça loura descendo de patins a lomba da Ramiro. Seu nome era Ingrid e tinha olhos da cor do céu.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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