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Mais sabedoria de almanaque

Por José Antônio Moraes de Oliveira

 

“Capivarol, o Rei dos Tonicos.

Dá força aos fracos,

Gordura aos magros

Energia aos exgottados”.

(Anúncio na Revista Caretas, Setembro de 1924).

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Em uma tarde preguiçosa de verão na fazenda do Passo Grande eu estava entretido com o “O Tico-Tico” do ano em que nasci. Aí o avô chegou com uma pilha de almanaques do “Capivarol” e do “Biotônico Fontoura”. Ele devia achar graça em meu interesse por aqueles velhos almanaques de seu tempo de estudante.

 

***

Larguei na hora o que estava lendo e peguei o almanaque de cima da pilha. Era um o Capivarol de 1941 e na capa, uma melindrosa coberta de peles, flores e pérolas. Uma imagem bem apropriada para os tempos de guerra na Europa e de muitas incertezas e medo no Brasil. A capa multicolorida era apenas um aperitivo para as páginas amareladas e gastas por leituras sem conta. Logo no início, peguei uma narrativa de 1890, de autoria de Machado de Assis, de como surgiu o primeiro almanaque. Era em estilo fantasioso, ao gosto de sua época: 

“O Tempo se apaixonou pela jovem Esperança, porisso criou o Almanaque para registrar dias, meses e anos, para que ninguém se enganasse com o tempo. Então, folhetos que caiam dos céus faziam com que todos compreendessem a língua do campo e das cidades. As palavras escritas em folhas de papel se modificavam a cada ano e assim contavam a passagem do Tempo. Dessa forma, o Almanaque contou a idade da Esperança, que ao deixar para trás a Juventude, tornou possível o amor do velho Tempo. E, a partir de então, a passagem do Tempo enche de Esperança a vida das pessoas”. 

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Um dos mais antigos do Brasil, o almanaque Capivarol começou  em 1919, publicado por um laboratório do Rio de Janeiro para divulgar seu produto carro-chefe, o auto-intitulado O Rei dos Tônicos. Era distribuido de graça em farmácias e drogarias em todo o País, recheado de anúncios de xaropes, unguentos, pílulas e elixires. Publicava calendários de feriados e datas festivas, além de conselhos para o plantio e colheita de hortas e lavouras. Também se sabe que os almanaques em geral cumpriam função educativa ao indicar tratamentos para doenças e pragas. E ainda substituiam cartilhas escolares e estimulavam o hábito da leitura.

Interessantes e reveladoras dos hábitos de então são as cartas  de leitores, testemunhos dos benefícios de tônicos e xaropes. Em 1933, um leitor agradecido escreveu: 

Sonhei com a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Ela me mostrou um vidro de remédio para a maleita. Comprei e usei. Graças a Deus minha filha melhorou. Acho que foi um milagre“.

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Outro depoimento, ainda mais expressivo, é a carta de uma senhora Maria de Jesus Valle, de Bello Horizonte, com firma reconhecida e data de 28 de Dezembro de 1931. O relato está  em sua ortografia original:

“Cumprindo um dever de gratidão (…) communico-lhe que soffrendo de desanimo immenso, falta de appetitte, insomnia e tedio horrivel, deparei com um reclame de seu preparado e, quasi descrente, comecei a usal-o. Fiquei surpresa com o resultado obtido e continuando até o quarto vidro, tornei-me hoje uma moça forte, bem disposta e sem aquelle tedio que tanto me atormentava a vida”. 

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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