Manias & Pesadelos III

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Das inúmeras - e algumas que são quase inacreditáveis - manias dos grandes escritores, a dama Agatha Christie não escondia suas preferências - entre outras, a de escrever no banheiro. A mestre da literatura policial dizia candidamente: 

"O tampo de mármore do lavatório é um ótimo lugar para escrever."

Ela detém o título de autora mais publicada em língua inglesa, com textos adaptados para a cena teatral, telas do cinema e TV. A peça 'Mouse Trap' bateu todos os recordes na história do teatro, com mais de 25 mil apresentações em Londres desde sua estreia em 1952. Sua mais popular novela, 'Assassinato no Expresso Oriente', ganhou versões no cinema, a mais recente de 2017, com Kenneth Branagh fazendo um caricato Hercule Poirot.

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O escritor inglês naturalizado norte-americano Henry James assinou um grande clássico da literatura de terror e mistério, 'A Outra Volta do Parafuso'. Ele tinha hábitos regulares, escrevendo apenas durante a manhã, reservando a tarde para ler, tomar chá e passear pelos parques londrinos; à noite, anotava ideias para o dia seguinte. Seus últimos anos transcorreram em isolamento na casa de Londres, que só deixou em 1904 ao regressar aos Estados Unidos, depois de vinte anos de ausência. Henry James dizia que era preciso escrever para se livrar de seus pesadelos recorrentes: 

"Assim que termino um livro, preciso imediatamente começar outro."

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O romance 'A Sangue Frio' é um marco na literatura criminal de não-ficção. Seu autor, Truman Capote, escrevia apenas quatro horas por dia. Depois, durante a noite, reescrevia tudo à lápis, antes de datilografar a versão final. Ele era extremamente supersticioso, escrevia na cama e nunca começava ou terminava um romance às sextas-feiras. E quando visitava um amigo ou parente, colocava as bitucas dos cigarros fumados nos bolsos para não sujar os cinzeiros. 

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O chileno Pablo Neruda, autor de 'O Carteiro e o Poeta' e 'Cem Sonetos de Amor', podia escrever poemas em qualquer ambiente, até mesmo em bares ou espeluncas barulhentas. Escrevia em quartos de hotel, trens superlotados ou no assento de um avião. No entanto, sofria de uma compulsão que o travava, quando o tinteiro (ou a caneta) ficava sem tinta verde. Consta que isso o fazia perder o fio da meada, deixando de compor. Em um episódio na Espanha, enquanto escrevia sobre a guerra civil, ficou sem tinta e os poemas se perderam.  No entanto, quando estava com o tinteiro cheio, era capaz de produzir uma imensa quantidade de inspirados poemas, como pequenas jóias como esta:

"Tira-me o pão, se quiseres,

tira-me o ar, mas

não me tires o teu riso." 

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia e tem passagens pelo Jornal A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo.Trocou o Jornalismo pela Publicidade, para produzir anúncios na MPM Propaganda para Ipiranga de Petróleo, Lojas Renner, Embratur e American Airlines. Foi também diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do CENP, que estabeleceu normas-padrão para as agências de publicidade. Escreveu o livro "Entre Dois Verões" com crônicas sobre sua infância e adolescência na fazenda dos avós e na Porto Alegre dos velhos tempos.

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