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Mar de pinheiros

O porteiro do Palácio Piria usa boina basca e vira a cabeça de lado para me ouvir. Podia ser um cacoete de surdo ou simplesmente …

O porteiro do Palácio Piria usa boina basca e vira a cabeça de lado para me ouvir. Podia ser um cacoete de surdo ou simplesmente o efeito do vento sul, que soprava forte do Rio da Prata e varria a Plaza Cagancha, deserta naquela manhã de inverno. Ele diz que não é dia de visitas, mas permite que eu percorra os jardins e o andar térreo. Os detalhes da fachada e os ornamentos dos salões contam a história do homem que construiu este palácio para ser sua residência – quando fosse eleito presidente da República. Na entrada, dois dragões entrelaçados, formam um “xis” de bronze entre folhas de acanto. No jardim, mais um enigma – uma estátua de Bafonet, a entidade mítica que era invocada pelos Templários contra atos de Satanás. 

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Don Fernando Juan Santiago Francisco Maria Piria era filho de imigrantes italianos, mas foi batizado com nome de nobre espanhol. Começou como vendedor de relógios em Montevidéu, mas seu destino era ser maior do que o tempo em que viveu.

Os relógios de bolso deram lugar a negócios de raiz – comprou grandes extensões de terra e construiu chácaras e mansões para estancieiros ricos. Anunciava os remates em cartazes colados em postes, oferecendo transporte e almoço de graça. O sucesso foi enorme e imediato e, em pouco tempo, nasciam 70 novos bairros nas cercanias de Montevidéu e  ao longo da costa. Viajou para a Europa e ficou encantado com a arquitetura de Paris e com os balneários da costa espanhola. Imaginou sua Montevidéu embelezada com Ramblas como as de Barcelona e com Grands Boulevards iguais aos do Barão Haussmann. Quando o navio em que retornava entrou no Rio da Prata, olhou a costa e disse a um amigo:

“Em cem anos, teremos rivieras iguais às da Côte d’Azur”.

Foi das palavras à ação, adquirindo milhares de hectares de terras em Maldonado e fundou uma cidade, chamada Piriápolis. Convocou arquitetos e engenheiros da França a quem encomendou um prédio de estilo art noveau, para abrigar um hotel-cassino como os que admirara nas cidades mediterrâneas. Quando inaugurado, em 1930, o Gran Argentino Hotel disputava com o Copacabana Palace o título de maior e mais luxuoso hotel da América Latina.

Mas isso ainda era pouco para Don Francisco Piria – desenhou ramblas e largas avenidas para Montevidéu, logo ocupadas por châtelets  e casarões de arquitetura francesa. Também importou vinhas de castas italianas e francesas, desenvolveu a extração de granito e lançou um jornal de oposição, quando se candidatou à presidência da República. Sua ambição política era romper   a histórica hegemonia de “blancos versus colorados”. Mas este sonho ele não realizou – recebeu apenas 658 votos.

Aos 80 anos, ainda tinha vitalidade e muitos planos. Queria uma floresta ao longo do Rio da Prata, para proteger os habitantes dos balneários dos ventos gelados da Patagonia. Importou da Europa um milhão de mudas de pinheiros marítimos, que, rezam as lendas, foram trazidas de terras antigamente ocupadas por cavaleiros templários. Como seus biógrafos sugerem que ele seria alquimista e rosacruz, suas ações sempre pareciam carregar significados ocultos.

Don Francisco Piria conseguiu plantar pouco mais de 400 mil pinheiros que, décadas depois, se transformariam na floresta que é hoje patrimônio nacional.

***

A caminho de Punta del Este, procuro vestígios dos encantos de antigos verões. Na estrada, carros modernos deixam para trás velhos caminhões, que parecem ser os mesmos que aqui rodavam nos anos sessenta.

Ao longo do percurso, os reflexos do Rio da Prata piscam através da cortina de pinheiros. Ao longe, em Piriápolis, o prédio de arenito branco do Gran Hotel Argentino reflete a última luz do sol, que se põe do outro lado do rio.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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