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Maus exemplos e vistas grossas

Se atualmente já vivemos uma situação extremamente preocupante em relação à violência de gênero, com sucessivos recordes nos números de feminicídios, pode se considerar assustadora as perspectivas em relação ao futuro.

Baseio essa minha conclusão no fato de a misoginia juvenil mostrar cada vez mais sua face, principalmente nas redes sociais. E quando se fala em regulação, há quem, defendendo outros interesses, como a propagação de fakes News, se oponha alegando censura.

Recentemente, o Colégio São Domingos, em Perdizes, na zona oeste de São Paulo, suspendeu três alunos do 9º ano, por terem criado uma lista de “meninas estupráveis” em um grupo de WhatsApp. Outros dois receberam a mesma punição por terem enviado figurinhas do financista americano Jeffrey Epstein.

No Rio de Janeiro, o jovem Vitor Hugo de Oliveira Simonin, 18 anos, acusado de participação em um estupro coletivo de uma adolescente, usou uma camiseta com a frase “Regret Nothing”, na tradução, “não se arrependa de nada”, ao se entregar à polícia.

Jeffrey Epstein foi acusado de liderar uma rede de exploração e tráfico sexual de menores de idade nos Estados Unidos. A frase “regret nothing” é associada a grupos misóginos da chamada “machosfera”, usada para disseminar ódio contra mulheres.

Nunca é demais lembrarmos que já tivemos por aqui no Brasil um deputado federal afirmando que uma parlamentar opositora “não merecia ser estuprada por ser muito feia”. Quais as conclusões que podem ser tiradas de uma afirmação deste tipo? Há mulheres que merecem ser estupradas? As mulheres “bonitas” merecem ser estupradas, uma vez que o então deputado disse que a parlamentar não merecia ser estuprada por considerá-la feia?

A verdade é que parte da sociedade faz vistas grossas a questões graves, como a reprodução de discursos de ódio via internet ou não. Enquanto não houver uma resposta forte a situações como essa, a tendência é de que viveremos dias cada vez mais difíceis.

Autor

Renato Dornelles

Jornalista, escritor, roteirista, produtor, sócio-diretor da editora/produtora Falange Produções, é formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) (1986), com especialização em Cinema e Linguagem Audiovisual pela Universidade Estácio de Sá (2021). No Jornalismo, durante 33 anos atuou como repórter, editor e colunista, tendo recebido cerca de 40 prêmios. No Audiovisual, nos últimos 10 anos atuou em funções de codireção, roteiro e produção. Codirigiu e roteirizou os premiados documentários em longa-metragem ‘Central – O Poder das Facções no Maior Presídio do Brasil’ e ‘Olha Pra Elas’, e as séries de TV documentais ‘Retratos do Cárcere’ e ‘Violadas e Segregadas’. Na Literatura, é autor dos livros ‘Falange Gaúcha’, ‘A Cor da Esperança’ e, em parceria com Tatiana Sager, ‘Paz nas Prisões, Guerra nas Ruas’. E-mail para contato: [email protected]
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