Mario Quintana escreveu um poema que fala: “da primeira vez que me assassinaram, perdi um jeito de sorrir que eu tinha, depois a cada vez que me mataram, foram levando qualquer coisa minha…”. Sinto-me tão contemplada com os versos do nosso poeta sempre que uma data comemorativa se aproxima. Páscoa, Dia das Mães, Natal, Ano Novo e outras. Essas quatro especialmente. De um modo pungente, me tocam. Porque algumas comemorações deixaram de ter, para mim, um significado maior desde que minha mãe Mirthô faleceu, em julho de 2011.
Porque a mamãe tinha um jeito muito especial de comemorar essas datas. Ela se programava com muita antecedência para nada dar errado. Convocava a família para as reuniões e raras vezes, por motivos inadiáveis, faltava algum integrante da turma. Planejava cuidadosamente os cardápios, sempre pensando em alternativas para o gosto de todos e para o meu mano caçula vegetariano. E se a ocasião fosse de presentear, ela sabia exatamente o que cada um queria. Nunca falhava.
Mas a Páscoa tem uma memória afetiva e olfativa que me deixa, por vezes, muito feliz de ter convivido com uma mãe tão especial, e outras, bem melancólica pela sua ausência física. Cada dia mais presente nas minhas melhores lembranças.
Quando seus netos e netas eram pequenos, Mirthô simulava pelo apartamento as pegadas do coelho, feitas com talco ou farinha de trigo, e arrumava cestas recheadas de guloseimas para que eles as encontrassem. Mais tarde, quando as crianças cresceram, ela preparava trufas deliciosas, que ninguém faz igual, para satisfazer o apetite deles. Para a minha filha Gabriela, por exemplo, ela deixava separado na geladeira, potes somente com o recheio de chocolate puro, porque era assim que a neta caçula de Mirthô gostava. Memórias afetivas que tenho de quem nos amou muito.
Mirthô sempre foi uma exímia cozinheira. Inventava comidas maravilhosas. Tinha uma mão extremamente boa para tortas, pudins, rapaduras, balas de coco e de goma e, claro as famosas trufas. Não tinha um domingo sequer que os filhos e as filhas da Mirthô se reunissem no seu apartamento ali na Barros Cassal sem que ela tivesse feito um bolo delicioso para o café da tarde. Mesmo quando a doença lhe alcançou de forma mais avassaladora, ela ainda queria e tentava se empenhar na cozinha.
E a Páscoa revive em mim uma memória olfativa que é muito forte. Sempre, em todas as sextas-feiras santas, mamãe preparava os insuperáveis bolinhos de bacalhau. Muitos. Em quantidade exorbitante. Não que a família comesse muito. Às vezes, até sim. Mas ela não gostava de ver a mesa vazia e queria que tivesse bolinhos para a janta. Ao contrário de alguns locais onde já comi, os bolinhos da mamãe não tinham excesso de batata, apenas o suficiente. Mas eram fartos em bacalhau. E para alegrar a mamis, os filhos se fartavam comendo, os genros e a nora também entraram logo na brincadeira de comer muito, se empanturrar.
A memória olfativa é porque hoje, 15 anos após a sua partida (e nos últimos anos, já combalida, ela não fazia mais os tais bolinhos), ainda sinto o cheiro do bacalhau e da fritura que impregnava pelo apartamento quando mamãe pilotava a cozinha nas sextas-feiras santas. É impressionante, mas consigo ver, ano após ano, seu corpo franzino caminhando perto do fogão a observar a frigideira, e suas mãos enrugadas moldando os bolinhos com perfeição. E sinto, ainda hoje o aroma e o perfume das sextas-feiras santas no apartamento da Mirthô. E assim, fui perdendo um jeito de sorrir que eu tinha.

