Colunas

Meninos, eu vi

A cada quatro anos, muda a nosso modo de perceber uma Copa do Mundo. No meu, por exemplo, desta vez estou mais observador e …

A cada quatro anos, muda a nosso modo de perceber uma Copa do Mundo. No meu, por exemplo, desta vez estou mais observador e menos coração. E o paradoxal, no entanto, é que “nunca antes na história das Copas” minhas observações chegaram tão límpidas ao meu coração.

Não lembro ter visto em outras Copas tamanha densidade de emoções, tanto com o que acontece em campo como fora dele. Graças às inovações e aos saltos tecnológicos, eu vi uma explosão de criatividade nas alegorias, nas cores e nas paixões estampadas nos olhares da humanidade. Eu vi templários e máscaras tribais, Cruzados e espanhóis, num afã, numa angústia em permanente transição, do terror à euforia, nas frações de segundos em que a bola assombrada descreve um arco, para se alojar nas brechas da dor ou da alegria.

Eu vi a coreografia poética da câmera lenta nas travas da chuteira rasgando a carne das pernas, eu vi. Eu vi o caudal das lágrimas do inconformismo, como se perder seria para sempre perder, para sempre derrotados. Eu vi o demônio incorporado no atacante, não importa de que país, porque gente não dribla daquele jeito, porque só o demônio para fazer aquele o gol que ele fez.

Eu vi, e vocês também, o Maradona devolvendo uma bola perdida num toque magistral de calcanhar, assim como vi que apenas um “pelo sinal da cruz” não basta para afugentar o medo e proteger a coragem. E vi também que a seleção dos melhores, necessariamente, não é a melhor seleção. Vi quando a esquadra brasileira jogou para os lados, jogou para trás porque não teve coragem e vontade de jogar para frente, como jogou a Argentina, o Chile, o México, a Alemanha.

Escrevi o período anterior na segunda-feira, e, no outro dia, vi o jogo contra o Chile e retiro tudo o que disse sobre jogar para os lados e acrescento que podia ser de 6 a zero para nós. Vi uma seleção brasileira jogar possuída, desaforada até. E finalmente libertar, várias vezes, a mais curta e eloquente, a mais linda e mais emocionante palavra que habita em nossos corações e em todas as gargantas filhas deste solo, desta mãe gentil: gol.

Autor

Paulo Tiaraju

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.