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Morcilha m.q. Morcela (chouriço), tripa de porco, carneiro ou outro animal recheada com sangue condimentado.(Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa) Redação da Última Hora gaúcha. …

Morcilha m.q. Morcela (chouriço), tripa de porco, carneiro ou outro animal recheada com sangue condimentado.
(Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)

Redação da Última Hora gaúcha.

Seis horas da manhã de 2 de abril de 1964. A ditadura instalara-se naquela madrugada.

Nestor Fedrizzi, editor-chefe, chega, olha para mim, surpreso, e pergunta:

– O que é que estás fazendo aqui?

– Esperando chegar alguém.

(Eu deveria ser a pessoa mais odiada pela polícia do Rio Grande, pois havia conseguido fechar um cassino e chefiara grandes reportagens onde os delegados saíam mal na foto. Isso e a mais absoluta oposição ao governo reacionário do Estado.)

Saí com Nestor que já havia lido a minha coluna Sem Censura daquele dia, – nada menos que a carta-testamento e a foto de Getúlio Vargas – e resolveu me esconder num apartamento vazio de onde se mudara há pouco. No trajeto, vimos jipes do Exército recolhendo o jornal nas bancas.

A partir daí, o jornalista Carlos Bastos, colega do jornal e que já era amigo antes de ser colega, assumiu a minha segurança.

Quando puseram um colega no pau-de-arara para dizer onde eu estava, Bastos, cauteloso, na mesma madrugada, desalojou da casa dele um irmão solteiro que morava sozinho, que eu não conhecia e não conheço, e me alojou lá. Naquela manhã, arrombaram o apartamento onde eu estivera.

Bastos, tentando encontrar alguém que pudesse me tirar de Porto Alegre, bateu no apartamento do engenheiro Arlindo Ferreira de Souza e da Carmen, pais do Paulo José, então em São Paulo, trabalhando no Teatro de Arena.

Colocado o problema, o Arlindo foi taxativo:

– Abrigar o Mario na estância em Lavras, tudo bem. Mas tu me entregas ele na estrada, pois não quero atravessar a cidade com ele (Arlindo era engenheiro do Estado). O Mario virou dinamite pura.

Acertados os detalhes, o encontro foi marcado no início da estrada na cidade de Guaíba, aos primeiros raios de sol. Feita a previsão do tempo para chegar lá ao alvorecer, Bastos, ao volante do seu Nash, e eu, no banco do carona, atravessamos a cidade e entramos na ponte sobre o Guaíba.

No meio da ponte, como a gente já esperava, fomos abordados por uma patrulha da Polícia Rodoviária. Checada a documentação do Bastos e do carro, o policial nos surpreendeu mandando ficar no acostamento até surgir o sol, pois as lanternas traseiras não estavam acendendo.

Como recordar é viver, recuso-me a escrever sobre esse tempinho secular que ficamos à espera do astro-rei aparecer.

Assim que liberado, Bastos entregou ao Arlindo, já meio preocupado pela demora,  a mercadoria – eu –, a qual  encarregou-se de nos passar imunes às barreiras policiais. Ainda com a roupa com que saíra do jornal há dias, cheguei à estância e o Arlindo perguntou ao capataz se me conhecia:

– Claro, o Seu Mario já esteve aqui…

– Pois tu não o viste…

– Como é que eu podia ver, se nem conheço?

Já pernoitados, antes do alvorecer, Arlindo, peões e eu já estávamos no galpão, comendo churrasco de ovelha e tomando chimarrão.

Terminado o “café da manhã”, estancieiro e peonada partiram para as coxilhas, na faina diária de fazer o rodízio do gado de um pasto para outro. Mal eles saíram, eu fiquei nu e, enquanto me banhava, fui lavando toda a roupa que exigia muito sabão.

Banho tomado, roupa lavada e dependurada, comecei a vasculhar as gavetas, à cata de algo qualquer que servisse de calças. Por ser maior que os figurinos da casa, só consegui uma bombacha que chegava apenas até a barriga e, apertada pelo cinto, criava um modelo grotesco, para dizer o mínimo.

Metido numa camisa que não fechava, fui me divertir atirando em caturritas que iam filar o almoço no milharal. Assim que ouvi o tropel da cavalhada de volta, fui para o pátio ver a chegada do pessoal

Do alto do seu cavalo, o meu anfitrião olhou-me e não resistiu:

– Eta morcilha mal-amarrada!

Inté.

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Autor

Mario de Almeida

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