Antonieta de Paula Souza – uma excrescência do magistério – ditava as aulas de geografia.
Não fosse eu estimado pela direção da Caetano e vice presidente do Grêmio Dois de Agosto, teria sido expulso, quando esfreguei o dedo no nariz da Antonieta, repetindo a frase que, insultada, desafiou-me a repetir “senso pedagógico absurdo”. Minha mãe foi chamada pela diretora Nair de Barros e fechamos um acordo eu: não assistiria mais às aulas da excrescência, tirando zero nas provas mensais. Nair, outra doce mas enérgica figura, creio que também concordava com o “senso pedagógico absurdo”.
Naquele incidente, Nair substituía o professor Francisco Cimino, demitido por Adhemar de Barros depois de uma passeata realizada contra ele numa noite, pelo centro de São Paulo. Eu discursei na frente da Faculdade de Direito, no largo São Francisco. Foi a glória, senti-me o próprio Rui Barbosa ou Castro Alves?
O imbróglio da demissão do professor Cimino, que insistia em autorizar a concessão da cantina escolar sem concorrência pública, resultou também na queda do secretário de Educação do Estado, Juvenal Lino de Matos.
Carolina Ribeiro, que por longo tempo já dirigira a escola, voltou para onde nunca deveria haver saído. Era ela novamente a diretora quando eu cursava as 3° e 4° séries e me convocava como orador em todos os eventos onde um aluno deveria representar o corpo discente. Eu falava antes dela: invertendo a ordem repetimos a dose, trinta anos depois, num palanque que armamos no jardim fronteiro, junto à escadaria central da escola, no nosso movimento antidemolição. Ela tingia os cabelos de azul e era uma figura imponente, lembra-se. Virgínia? Logo que o Getúlio foi defenestrado como ditador, em 1944, e o Estado Novo acabou, ela filiou-se ao Partido Republicano Paulista. Foi uma excelente e douta oradora e ativa militante política do PRP.
Logo no primeiro ano do ginásio ganhei minha primeira expulsão de classe, na aula inaugural de trabalhos manuais. Benedito, um pobre homem, querendo ressaltar a importância de sua “cátedra”, soltou essa frase “já dizia o filósofo grego Anaxágoras que o homem pensa porque tem mãos”. Na minha santa lógica formal perguntei:
– E o maneta, professor ?
Para fora, já !
Inté.
(Do livro “Caetano de Campos a escola que mudou o Brasil, de Patrícia Golombek”)

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