Mulheres: uma maioria que se comporta como minoria

Por Elis Radmann

As mulheres correspondem à maioria da população, à maioria dos eleitores, à maioria dos professores e à maioria dos profissionais da área da saúde. Quando o debate é quantidade, quando falamos em números, as mulheres são a maioria, inclusive nos indicadores de violência e pobreza.

Para as mulheres virarem minoria, basta a gente pensar em debates que envolvem o poder, a gestão, a política e o processo decisório como um todo. Se prestarmos atenção, a maior parte das análises sobre direito de minorias começam citando a mulher como um grupo que precisa ser protegido e empoderado, inclusive com concessão de cotas. Sociologicamente, as mulheres são consideradas como minoria por fazerem parte de grupos sociais que historicamente foram excluídos do processo de decisão.

Esta semana comemoramos mais um Dia Internacional da Mulher e proponho uma mudança de mentalidade, um outro olhar! A narrativa do empoderamento feminino não deve ter o seu com foco na culpabilidade do processo de dominação masculina, nem evocar os estereótipos contra as mulheres ou o contexto estrutural que manteve e mantém as mulheres à margem do processo produtivo. Já conhecemos essa novela, tanto pela história como pelo cotidiano e não vamos enfrentar a disparidade de gênero apenas com lamentações.

O foco da mudança deve estar na busca de uma cultura inclusiva, que começa na educação de nossos filhos, quando vamos dizer para as crianças que, quando se é pequeno, se brinca com o que quiser e quando for grande também poderá trabalhar no que quiser. Na prática, menina pode brincar com carrinho e menino de boneca. No futuro, a menina também vai dirigir um carro e o menino deve ajudar a cuidar dos filhos. 

A grande pergunta do dia 08 de março diz respeito ao que devemos fazer para ocuparmos o nosso espaço, para construirmos a equidade de gênero? Qual o nosso papel na construção desta igualdade e o que temos que fazer para sermos tratadas como maioria?

O caminho para essa resposta está na educação e na mudança de paradigma. Para compreender e dominar qualquer área de atuação ou do conhecimento, precisamos de uma certa dose de vocação, de dedicação, muito trabalho, tempo e coragem. 

Ninguém deve se tornar líder através de sistema de cotas. Para que a mulher ocupe cargos efetivos de liderança, seja na política, na ciência ou no mundo corporativo, precisa dominar o tema no qual se aventura, buscar expertise na área. A trajetória não é fácil e ainda é verdade que a mulher precisa se dedicar o dobro do tempo para ser reconhecida, para ser aceita ou respeitada. As batalhas culturais são vencidas com mudanças comportamentais e para tanto é necessário "arregaçar as mangas e fazer". 

As mulheres são "docemente fortes", executam suas tarefas com capricho e gostam de um desafio que lhes permita mostrar o seu valor. As mulheres lidam melhor com aquilo que é "diferente" e que, muitas vezes, é considerado como transgressão. As mulheres só precisam começar a ocupar os espaços com uma visão oxigenada sobre o seu papel e foco na resolução de problemas e, como consequência, com o tempo, serão maioria nos processos decisórios como um todo.

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996 e tem a ciência como vocação e formação. Socióloga (MTB 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e tem especialização em Ciência Política pela mesma instituição. Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Elis é conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) e Conselheira de Desburocratização e Empreendedorismo no Governo do Rio Grande do Sul. Coordenou a execução da pesquisa EPICOVID-19 no Estado. Tem coluna publicada semanalmente em vários portais de notícias e jornais do RS. E-mail para contato: [email protected]

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