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Músicos nunca dormem (II)

O maestro Herbert von Karajan costumava dizer que o verdadeiro músico não consegue dormir o sono perfeito, pois se transforma em um permanente escravo …

O maestro Herbert von Karajan costumava dizer que o verdadeiro

músico não consegue dormir o sono perfeito, pois se transforma em

um permanente escravo da Música. Ele mesmo passava noites insones,

estudando as partituras das sinfonias de Beethoven, procurando entender

a alma do genio de Bonn.

Por três noites, Franz Liszt não conseguia dormir. No alto do balcão do Ca’ Vendramin Calergi, olhava as águas escuras, sentindo-se assombrado por estranhos pressentimentos. Era o dia 13 de fevereiro de 1883 e, naquela hora incerta, Richard Wagner estava morrendo.

A longa procissão de gôndolas cobriu o Grande Canal de Veneza. À frente, a gôndola fúnebre, coberta de veludos negros, com o corpo do “mais germânico de todos os homens”. Ao passar sob a Ponte dell’ Accademia, um coral entoou a abertura de “Tannhäuser”, enquanto moradores saudavam com lenços negros e jogavam lírios nas águas do canal.

Aquela procissão em águas pacíficas em nada lembrava os grandes e apocalípticos funerais wagnerianos e fazia uma antítese com as águas turbulentas de “O Holandes Voador”. É nesta ópera que surge o tema da redenção do homem, através do amor de uma mulher, que seria recorrente na obra de Wagner – e ao longo de sua vida. Sua primeira esposa, Mina, o acompanha por muitos sucessos e alguns fracassos. Mathilda Wesendonk, a esposa de um devoto patrocinador, serve de inspiração para a heroína de “Tristão e Isolda”. Finalmente, Cosima, filha de Franz Liszt e mulher do maestro Hans von Büllow, preenche seus sonhos. A união com Cosima coincide com um período de grande fecundidade – quando produz grandes obras primas, incluindo “O Anel dos Niebelungs”, com suas monumentais 18 horas de duração. Reza a lenda que, enquanto compunha “O Anel”, Wagner não dormia, atormentado pelo desfile de deuses, heróis, duendes e demônios da saga nórdica.

Liszt não viu a passagem da procissão fúnebre do amigo pelo Grande Canal. Passou o resto do dia no pallazzo, procurando afugentar seus fantasmas. Inconscientemente, dedilhava ao piano o tema da canção de amor de “Tristão e Isolda”, que lhe recordava as sofridas relações da filha Cosima com Wagner.

A noite chegou e reflexos das àguas projetavam luzes e sombras nos tetos e paredes. Quando amanheceu, ele havia composto uma de suas notáveis peças para piano, “La Lugubre Gondola”.

A melancolia desta sonata se cristaliza nos anos finais do compositor. Uma queda o deixa imobilizado por semanas e passa a sofrer de asma, catarata, hidropsia e de insônia crônica.

Marcado pela desesperança, escreve a um amigo:

“Carrego uma angústia tão profunda que somente a música é capaz de redimir”.

Em 1886, morre Liszt, vítima de uma pneumonia contraída durante o Festival de Bayreuth, organizado por Cosima, em homenagem a Wagner. Antes de morrer, pronuncia uma palavra que ficou como um enigma para os biógrafos.

Ele disse apenas : “Tristão”.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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