Minha filosofia, em essência, é o conceito do homem como ser heroico, que tem sua felicidade como objetivo moral de sua vida, a realização produtiva como atividade mais nobre e a razão como seu único absoluto.
(Ayn Rand escritora e filósofa)
Russa de origem judaica, nascida em Petersburgo em 1905 e falecida em Nova Iorque em 1982, Alissa Zinovievna Rosenbaum imigrou para os Estados Unidos em 1926 e lá, com o nome de Ayn Rand, iniciou sua carreira de escritora, dramaturga, roteirista e controvertida filósofa.
Ayn Rand ocupa lugar de destaque nas letras e no pensamento dos Estados Unidos, inda que seu nome esteja longe de ser popular no Brasil.
A Biblioteca do Congresso americano fez uma pesquisa, em 1991, para saber qual o livro que havia exercido maior influência na vida das pessoas. O primeiro lugar coube à Bíblia. O segundo, a Quem é John Galt? (relançado no Brasil com o título de A Revolta de Atlas), da escritora Ayn Rand.
Desde quando foi lançado nos Estados Unidos, em 1957, este livro já vendeu 6 milhões de exemplares. E é vendido, em todo o mundo, até hoje.
Como filósofa, Ayn propôs uma corrente, o Objetivismo, e ganhou um Instituto com o seu nome, o qual celebra sua obra, definindo-a como uma grande pensadora do século passado: “Ayn Rand certamente vai ser colocada entre as figuras mais importantes da filosofia do século XX e como a mais intransigente e coerente defensora da razão contra as várias formas de irracionalismo; do indivíduo contra as várias formas de coletivismo (social ou estatal), e da liberdade contra todas as formas de servidão. Mas a defesa do indivíduo e da liberdade se encaixam no contexto maior de sua defesa da razão”.
Não vou meter minha humilde colher no caldeirão de questões filosóficas, mas não tenho o menor constrangimento em afirmar que o pensamento de Ayn, além de instigante, encontra eco, hoje, nas minhas reduções existenciais.
“A civilização é o avanço de uma sociedade em direção à privacidade. O selvagem tem uma vida pública, regida pelas leis de sua tribo. Civilização é o processo de libertar o homem dos outros homens.”
Esse pensamento me remeteu, direto, para Sartre e sua peça, Huit Clos, apresentada no Brasil como Entre quatro paredes quando o personagem Garcin afirma: “O inferno são os outros”.
Uma simples frase, como essa, pode explicar uma coisa banal que me acompanha desde a infância: sou um inimigo visceral dos modismos (não confundir com modernidade), que é uma forma do indivíduo se inserir num grupo social quando, acho, deveria ter a preocupação de se distinguir do todo como um ser único.
Lembro-me muito bem da gargalhada que não reprimi ao ler, há muito, que “a cor deste verão vai ser o amarelo”.
Fui apresentado à tatuagem no braço do Popeye nos gibis e nos braços dos marinheiros suecos, na cidade portuária de Santos, nos anos 1940 e, mais tarde, aprendi que a tatuagem vem de eras remotas, há milênios, o que me causou um susto, quando nos anos 1970 percebi que parcela da nossa civilização caminhava para trás em aspectos tribais como, por exemplo, além das tatuagens, o som repetitivo da música direcionada para os nossos neurônios e as danças praticadas nas discotecas.
Na verdade, Ayn me ensinou muitas coisas e elucidou outras como:
“A menor minoria na Terra é o indivíduo. Aqueles que negam os direitos individuais não podem se dizer defensores das minorias.”
“A maior recompensa do ser humano é que, enquanto os animais sobrevivem ajustando-se ao meio em que vivem, o homem sobrevive ajustando a si próprio.”
No Disney World há uma placa com um pensamento de Ayn: “Ao longo dos séculos, existiram homens que deram os primeiros passos para novas estradas, armados apenas com a sua própria visão”.
Não sou médium e que eu saiba, Ayn nunca foi espiritualista, mas intriguei-me quando li esse pensamento dela, diretamente ligado à nossa realidade:
“Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em autossacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada”.
Acho que nessa foto o Brasil está muito mal. Você também acha?
Inté.
Vitrine (comentários dos leitores sobre a coluna anterior)
Amigo Mário, é sempre um grande prazer ler sua coluna. Parabéns, abraços, Nei Leandro de Castro, escritor, publicitário, Rio.
Mario, bom dia. … nesse sentimento de asco tens a minha companhia … Moisés Andrade, arquiteto, Olinda, Recife.
Querido Mário, divido com você o desencanto com o nosso país, com os eleitores e com os “políticos” desse nosso Brasil. Tenho fugido dos noticiários de TV, das grandes análises, pois perdi completamente a fé em algum tipo de mudança. Já dizia minha tia Cecília Magaldi: um país que não investe em saúde e em educação será sempre manipulado, pois o povo não saberá escolher. Lembro de ter ouvido esse comentário na época dos governos militares. De lá pra cá as coisas não mudaram. Lamento por nossos filhos e netos. Um beijo grande, Monica, bióloga, Bebedouro, SP.
Mario, esse vazio, esse oco que nos congela a alma não é privilégio seu. Todos nós que tivemos uma verdadeira educação de berço, que recebemos lições de civilidade nos bancos escolares, que convivemos em nossas vidas com os sadios princípios da ética e da moral, só podemos mesmo manifestar o nosso inconformismo com tudo isso que aí está. Fizemos a nossa parte e muito bem. Temos as nossas consciências tranquilas pelo dever bem cumprido. E só nos causa revolta quando ouvimos de algum idiota frases como: “SOMOS TODOS RESPONSÁVEIS” ou “FOMOS NÓS QUEM ELEGEMOS”! Na verdade, não merecemos essa atualidade. Abraços, Eng. José Carlos Pellegrino, São Paulo.
Mestre Mário, extremamente lúcida e oportuna sua abordagem sobre o Brasil e a massa amorfa que o habita. Em sua esmagadora maioria, um povo pobre em todos os sentidos. Disso decorre, em parte, o perfil da classe política putrefata que impera por aqui. Para aqueles que ainda se apegam aos (poucos) índices macroeconômicos em que o Brasil “se destaca”, sugiro uma análise mais profunda e isenta de qualquer ufanismo – pois nem isso o país merece dos seus cidadãos. Como você, felizmente, tenho e uso o passaporte. E se fosse mais jovem, creia-me, migraria. Fraternal abraço. Carlos Eduardo Cunha, professor de Comunicação, Florianópolis.


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