Sexta-feira, 2 de julho, Iberê Camargo e eu desembarcamos em Fortaleza, Ceará. Mais minha dona, Áurea.
O gaúcho Iberê, falecido há 10 anos, era considerado pelo também gaúcho, filósofo Gerd Bornheim, o maior pintor brasileiro de todos os tempos.
Eu não havia tido oportunidade de ver as últimas telas dele e fui direto para o Museu de Arte Contemporânea, ponto final da mostra itinerante “Iberê Camargo: Diante da Pintura”, 52 obras também expostas em Salvador e no Recife.
Não sou crítico de arte e posso dizer, apenas, que me extasiei diante de obras como “Tudo é fácil e inútil”, inspiradas no tema do poeta Fernando Pessoa.
Ainda ganhei um algo mais, pois lá estava a maquete da futura sede da Fundação Iberê Camargo, a ser erguida na avenida Padre Cacique, às margens do Guaíba, projeto do arquiteto Álvaro Siza Vieira, o “Niemeyer de Portugal”. Também não sou crítico de arquitetura, mas posso afirmar, sem medo, que o futuro repositório enobrece a genialidade de Iberê.
Vou contar um episódio paradoxal na vida do artista. Morando no Rio há muito, em novembro de 1960, Iberê foi rever os pagos e deu uma entrevista taxando o cenário porto-alegrense de “marasmo cultural”. Isso mexeu – e muito – com os círculos criativos e pensantes da capital e o seu amigo de sempre – Xico Stockinger- propôs-lhe fazer um debate com a classe. O Teatro de Equipe, que já era o telhado da inteligência da cidade, foi o espaço natural dessa noite que se inseriu na história da cultura gaúcha.
O Equipe, com platéia e escadaria lotadas, mais o palco também apinhado de gente e com os cenários da Farsa da Esposa Perfeita, de Edy Lima, em temporada no teatro, reuniu Iberê, Xico e Ruy Carlos Ostermann na mesa. Nesse ambiente super lotado, estavam presentes Lara de Lemos, Ruth, antes ainda de conhecer o marido, jornalista José Monserrat Filho, o próprio Monserrat, professor Corona, Carlos Scarinci, Nadyr e Fernando Castro, Paulo Hecker Filho e todo o pessoal do Equipe, é claro. Menos eu que, naquela noite, dava uma palestra sobre teatro em Pelotas. Depois, ouvi a gravação.
Enéas de Souza, hoje psicanalista, era jornalista e cobriu a noitada: duas páginas com fotos na Revista do Globo. E resumiu o paradoxo: a segunda parte do encontro transformou-se numa análise da produção artística e cultural em suas diversas áreas, suas dificuldades e reivindicações. E o pseudo-marasmo resultou numa grande agitação de idéias, numa discussão oportuna de problemas e soluções.
Essa agitação não ficou, como quase sempre, na pura discussão. Acontece que uma senhora – Istelita Cunha, também presente, acabou levando ao então Secretário Municipal de Cultura, Brito Velho, a idéia de criação de um Atelier Livre. Meses depois, em cima do abrigo de bondes da então Praça XV, era instalado o Atelier e Iberê voltava a Porto Alegre para, durante 20 dias, orientar os artistas inscritos para essas aulas teóricas e práticas. Iberê foi, portanto, mais um dos agitadores daquela Porto Alegre que vivia uma efervescente busca de sua identidade não regionalista.
O próprio Iberê, nessa oportunidade, desmentiu o tema de Pessoa: “Tudo é fácil e inútil”.
Assim como o “marasmo” se inseriu na história cultural do Rio Grande, o Atelier Livre está comemorando 43 anos.
Viva Iberê!
Inté.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio) e co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos).

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial