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Nino Rota – O Anjo Apagado

Um pequeno grupo de veteranos atores, diretores e roteiristas da Cinecittá encontrou-se na semana passada diante da Igreja de Santa Bárbara e São Tomás …

Um pequeno grupo de veteranos atores, diretores e roteiristas da Cinecittá encontrou-se na semana passada diante da Igreja de Santa Bárbara e São Tomás de Aquino, em Roma. Estavam ali para repetir um ritual iniciado em 10 de abril de 1979, o dia chuvoso e triste em que morreu Nino Rota.

O grupo que se reuniu pela primeira vez naquela mesma igreja, há 31 anos, era bem mais numeroso. Dele faziam parte grandes figuras do cinema italiano, como Federico Felini, sua mulher Giulietta Masina, o roteirista Tonino Guerra, o premiado fotógrafo Giuseppe Rotunno e a cantora Katina Ranieri, amigos e companheiros do grande compositor.

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É difícil citar um grande filme italiano, de 1950 em diante, que não tenha a assinatura de Nino Rota na trilha musical. Ele fez música para filmes de Renato Castellani, Luchino Visconti, Franco Zeffirelli, Mario Monicelli, Francis  Ford Coppola, King Vidor, René Clément, Edward Dmytryk e Eduardo de Filippo. Mas foi ao lado de Federico Fellini que ele transformou a banda sonora em protagonista de alguns dos maiores momentos do cinema europeu.

Desde sua morte, os amantes de cinema se debatem na dúvida: qual teria sido a grande música de Nino Rota? Alguns pesos-pesados já deram sua opinião.

 Francis Ford Coppola, que foi à Itália em 1972, convencer Rota a musicar O Poderoso Chefão, disse que “The Godfather Waltz” é o mais comovente tema do cinema moderno. O italiano Franco Zefirelli, para quem Nino Rota compôs a trilha de Romeu e Julieta jura que, desde Luzes da Cidade, de Charles Chaplin, nunca um tema musical o fizera ir às lágrimas.

Em sua obra-prima, Il Gattopardo, Luchino Visconti queria filmar um baile deslumbrante para registrar o apogeu da aristocracia do Norte da Itália, às vésperas da luta pela unificação, recriando o clima do clássico de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Imaginou uma grande valsa, dançada pelo Príncipe de Salina com a bela  Angelica Sedara, interpretados por Burt Lancaster e Claudia Cardinale.  Mas não podia usar uma valsa vienense – queria algo italiano e que tivesse a marca do risorgimento do século XIX.

O diretor havia descoberto em uma livraria de Roma um manuscrito inédito da “Valze Brillante”, de Giuseppe Verdi, porém escrita para pianoforte.  Entregou a Nino Rota a missão de adaptar a valsa para piano e grande orquestra. Quando ouviu o arranjo de Nino Rota, Visconti teria exclamado:

 –“Maestro, nem o revolucionário Verdi faria melhor”.

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Rota era tão distraído que esquecia em casa as partituras que escrevera para Amarcord, A Doce Vida e Giulietta dos Espíritos. Toninho Guerra, roteirista favorito de Fellini, o chamava de “O Anjo Esquecido” e o recriminava por não avisar os amigos que tinha problemas no coração. Mergulhava no trabalho e esquecia o horário das refeições. Fellini queria para seu La Strada uma trilha que lembrasse os circos mambembes de sua infância. Rota sumiu de casa e passou dias percorrendo acampamentos ciganos nos arredores de Roma. De volta ao piano, em dois dias, compôs a música do filme, incluindo o tema de Gelsomina, uma das mais nostálgicas evocações da Italia do pós-guerra.

Mas a música de Nino Rota não se limita a temas inspirados pelo imaginário feliniano. Quando foi chamado por René Clement para compor a trilha de O Sol por Testemunha, desenhou a moldura perfeita para o charmoso Tom Ripley, o gênio do mal, criado por Patricia Highsmith e tão bem personificado por Alain Delon.

Anos depois, com a música para a trilogia “The Godfather”, Rota ganha fama internacional e um demorado Oscar. Mais tarde, Francis Coppola diria que, da mesma forma que apenas atores únicos como Marlon Brando e Al Pacino poderiam interpretar Don Corleone, somente um compositor comprometido com raízes italianas como Nino Rota seria capaz de musicar a saga mafiosa de Mario Puzo.

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Em uma entrevista à RAI, pouco depois da morte do compositor, Federico Fellini lembrou seu primeiro encontro com o amigo de tantos anos e companheiro de tantos filmes:

” – Do outro lado da rua, defronte à Cinecittá, notei um homem pequeno e engraçado, esperando o trem no lugar errado. Ele parecia alegremente ausente de tudo ao seu redor. Me senti compelido a esperar com ele, mas tinha certeza que o trem iria parar no lugar de costume e que teríamos que correr para alcançá-lo. Mas Nino estava convicto que o trem iria parar no lugar onde ele estava… Para minha surpresa, o trem parou exatamente onde nós dois estávamos”.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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