O envelope pardo tem o carimbo dos correios da Plaza de Mayo e, no lugar do remetente, um endereço que não reconheço. Intrigado, rasgo o envelope e encontro uma carta manuscrita com caligrafia caprichada. Começa com “Buenos Aires, no Dia de San Patricio”. Ao lado, uma frase de Jorge Luis Borges acorda minha memória:
“Uma forma de caminhar pela vida”.
É a mesma frase que está no cartão de visitas de Juan Domingo, aquele taxista de Buenos Aires que conhece os barrios como poucos. E que, quando solicitado, anima os percursos pela cidade, recitando a letra dos grandes tangos de Celidonio Flores e Alfredo Le Pera. Mas Juan não é apenas uma figura folclórica, com pequenos truques para encantar turistas. Em seu táxi, carrega os jornais do dia, além de livros de Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares. Faz ponto diante do La Biela, na Recoleta e enquanto espera clientes, lê livros de Jorge Luis Borges.
Também está equipado com um moderno GPS, que raramente usa, pois sabe os endereços de restorans e bodegóns, onde se pratica a verdadeira cozinha portenha. Diz que seu telefone está fora de serviço por culpa das operadoras, que dominaram o mercado de telefonia celular. E que foi proibido de usar o telefone do balcão do La Biela, para receber chamadas de clientes.
Junto à carta, uma nova lista de restaurantes onde, segundo Juan, “ainda se pode comer como um príncipe”.
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A lista começa com o que parece ser um achado: o Club del Progreso, que por mais de cem anos foi cenário de conspirações e confabulações políticas e reduto da mais autêntica “argentinidad”, agora aberto ao público.
O prédio, de impecável arquitetura francesa, passou por cuidadosa restauração e merece ser admirado, com seus pisos de mármore e escadarias com grades em bronze e ferro forjado. No salão principal do restaurante, luminárias de opalina e paredes revestidas por paineis de carvalho. A reforma criou um espaço para almoços informais – um amplo pátio com piso de mármore preto-e-branco e abóbada de cristal.
Ali, o prato mais pedido é o “Revuelto Gramajo”, um omelete com batatas fritas e ervas, criado no século dezenove. A sugestão de entrada é o “Riñon de cordero encebollado al vino tinto” e, como prato principal, a “Costilla de novillo con mollejas crocantes e ensalada criolla”. A carta de vinhos está recheada de clássicos como o Felipe Rutini e o Catena Zapata Reserva, mas Juan observa que os preços são mais adequados a estancieiros do que a motoristas de táxi.
O Club del Progreso fica no centro, na Calle Sarmiento 1334, a poucos quarteirões do Obelisco e dos teatros e livrarias da avenida Corrientes.
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Restaurantes de museu, habitualmente, não são uma boa aposta, mas o taxista-guia jura que o restaurante do Museu Evita merece uma visita. Os pratos de carnes, massas e crepes são servidos no pátio interno, cercado de muitas árvores. O museu fica no limite entre a Recoleta e Palermo, um pouco afastado do fluxo de turismo. A chef e astróloga Claudia sugere o “Tagliatelle com Pulpitos em su salsa” e o “Sorrentino de cordero con queso de cabra”. Uma opção de entrada são as empanadas de carne cortada a faca. Saladas? Tentar a de queijo brie com figos turcos e coração de alcachofras. Calle José Maria Gutiérrez, 3926.
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El Ribereño mais parece um clube do que um restaurante. O cardápio é decorado com caricaturas dos proprietários. Um deles, Charly, senta-se à mesa dos clientes para sugerir a melhor pedida do dia. No verão, as mesas ficam ao ar livre, o que parece ser a atual tendência dos novos restorans portenhos. Sugestões: pescados frescos e o generoso bife de chorizo. Juan avisa que o serviço é demorado e o lugar fica lotado nos fins-de-semana. Mas o sorvete de maracujá encanta até mesmo seus clientes brasileiros. Calle Chile, 193, em San Isidro.
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O Ña Serapia é menos um restaurante e mais um botequim. Tem apenas 11 mesas. Suas especialidades são comidinhas nortenhas: “tamales”, “empanadas”, “humitas” e “carbonada”. Tudo muito calórico, de acordo com a personalidade da cozinha crioula. Metade dos clientes faz sempre o mesmo pedido: empanadas de carne picante, feitas em um grande forno de barro. São enormes, crocantes e recheadas de molho. Av. Las Heras 3357, em Palermo.
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Para concluir, Juan informa que seus clientes estão elogiando os pequenos restaurantes que se instalaram no centro de Buenos Aires, em antigos conventos e claustros. Um pequeno bistrô foi aberto no vetusto Claustro de Santa Catalina, na Calle San Martín. E, no pátio do Convento Grande de San Ramón Nonato, na Reconquista, agora funciona um charmoso restaurante de peixes e grelhados.
O taxista que lê Borges garante que vai investigar o assunto para dizer do que se trata. Se despede com a recomendação final: telefonar antes da viagem, pois gosta de acompanhar seus clientes aos restaurantes e bodegóns que recomenda. Sem cobrar taxa extra, adverte.
Mas esqueceu de um detalhe: não informou o número de seu novo celular.

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