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Nuvens como Vestes

Quando meu avô Patrício calçava as botas e montava em seu cavalo zaino, parecia mais alto do que era na verdade. Com seu pala …

Quando meu avô Patrício calçava as botas e montava em seu cavalo zaino, parecia mais alto do que era na verdade. Com seu pala azul e branco ao vento, parecia aos meus olhos de criança que ele estava vestindo nuvens.

Eu ainda era muito pequeno para entender as coisas como elas realmente são. Meus verões na fazenda do Passo Grande eram tempos alegres e despreocupados, com descobertas de vida que se sucediam a cada momento. Os acontecimentos do campo e as estórias que as pessoas contavam, eram puros encantamentos para o menino de cidade.

Uma maravilha era observar meu avô preparar poções homeopáticas que curavam os males das famílias dos agregados. Em uma pequena caixa de madeira ele guardava frascos com rótulos em latim, que ele lia em voz baixa, para não perder a ordem de preparo: Nux Vomica, Belladonna, Calendulla, Chamomila. Eu tocava o frasco de Aconitum Ferox, que nunca era usado, mas que tinha nome de poção mágica, talvez capaz de misteriosas feitiçarias.

Nas rodas de fogo-de-chão, meus tios contavam vagas estórias sobre o Coronel Patrício, mas se calavam quando uma criança ou mulher passavam por perto. Dizia-se que ele participara em ferozes entreveros nas revoluções e que havia sido enviado para estudar no Rio de Janeiro e ficar longe dos tiroteios que assolavam a região.

Um dia, enquanto arrumava gavetas, ele me chamou para mostrar seu diploma de médico, escrito em letras floreadas e amarrado com uma desbotada fita vermelha. Em outra ocasião, vendo ele preparar quietamente seu mate, cheguei perto e perguntei sobre a revolução. Ele me olhou calado por algum tempo, ajeitou a erva na cuia enfeitada com ouro e prata e, quando começou a falar, foi interrompido por um peão, que veio avisar que a égua rosilha estava dando cria.

“- Fica para outra vez, meu neto”. Ele parecia aliviado, e achei que não lhe agradava pensar nos tempos de guerra.

Quando ouvia os tios falando sobre os tempos passados, eu procurava entender como era a vida na antiga fazenda. Me contavam que havia rebanhos a perder de vista e que era preciso vigiar dia e noite, com a Winchester atravessada nos arreios e um olho nos leões baios.

Mas dos tempos de guerra de meu avô, ninguém falava. Um dos peões mais velhos, de nome Ermenegildo, tinha a língua solta e volta e meia falava o que não devia. Depois de três ou quatro tragos de caña, passava a contar estórias que talvez nunca tivessem acontecido. Dizia lembrar do Coronel Patrício, com seu pala azul e branco ao vento, atrás dos correntinos que carneavam o gado da fazenda. E que suas tropas não perdoavam os castelhanos renegados, que lutavam para os dois lados. Quando indaguei o que significava aquilo, o velho peão passava o polegar sob o queixo, da esquerda para a direita.

Eu nunca botei muita fé naquilo. Acompanhava de perto meu avô curar os animais feridos, conhecia seu jeito de tratar os cavalos e via como os cães pastores o seguiam dia e noite. Teria esse homem alto, de doces olhos azuis, sido capaz de mandar matar renegados?

Passados alguns anos, eu vi o avô envelhecer a cada novo verão. Ele ainda tinha fogo nos olhos e força na voz para ralhar com os peões e gritar com o gado. Mas já não tinha a mesma destreza para laçar, nem para galopar em seu zaino. Suas botas ficavam guardadas no quarto e o pala azulado, pendurado ao vento no cabide da porta.

Ele sentava debaixo da figueira grande e me chamava para conversar. Preparava o mate na cuia enfeitada e me contava sobre as origens da fazenda. E parecia feliz, quando falava sobre seu personagem favorito, sua avó, Doña Brígida Calderon, a espanhola que herdara uma capitania e que mandou enterrar uma carreta carregada de dobrões de prata nas areias da Lagoa dos Patos.

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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