– Me dá uma carona, Mario?
– Claro.
Ao chegarmos defronte ao edifício dele, desci para abraçar o amigo e ele convidou:
– Vem almoçar conosco amanhã.
– Não posso.
– Por quê?
– Tenho um almoço com uma moça que comecei a namorar, mas ela ainda está casada.
– E daí? Traz a moça.
– Não dá, o marido também almoça.
– Traz o marido, pô!
João Carlos Magaldi – o Barba – e eu sentamos no meio-fio para rir à vontade.
Quando, de forma civilizada, minha companheira e eu terminamos, ela fez minha malas e me deixou na porta do hotel em Copacabana, onde morávamos.
Nos meses em que eu buscava um novo endereço, fiz rodízio por alguns hotéis e em nenhum fim de semana deixei de receber um telefonema ou um convite do Magaldi para aparecer na casa dele. Certa vez, caiu-me nas mãos um livro sobre a saga de uma família da Calábria e, na primeira oportunidade, mandei um bilhete para aquele filho de calabreses: “Quem tem amigo calabrês não aceita imitação”.
Quando Magaldi morreu, Armando Nogueira pediu-me que escrevesse um texto para ele divulgar em seu programa de esportes na Net. Escrevi um texto, não para divulgação, pois foi um exorcismo da dor de perder o parceiro, onde coloquei as facetas de uma amizade entre camaleões: pai, chefe, filho, irmão, confidente, conselheiro, enfim, a situação é que determinava o papel da cada um.
Não vou escrever sobre o publicitário que com Carlito Maia fundou uma das mais emblemáticas agências de propaganda do Brasil, nem das criativas relações da Magaldi, Maia com Roberto Carlos e sua Jovem Guarda e nem no nosso reencontro – então profissional – na Standard Propaganda, Rio.
Em 1978, Magaldi criou, na Rede Globo, o prêmio “Profissionais do Ano” e eu fui o redator do regulamento de suas primeiras versões. Obtive uma importante vitória na ocasião, pois provei que prêmios em dinheiro, além de acabar com o lugar-comum das passagens aéreas, evidencia um pragmatismo absoluto junto ao mercado: dinheiro compra tudo, inclusive passagem aérea. Magaldi aceitou as minhas ponderações e se rendeu ao argumento, ele que já se referia a mim como o “Fanático da Objetividade”.
No final de 1977, na Rede Globo, sala de Otto Lara Resende, nascia a Frente Ampla pelo Flamengo, para a qual Magaldi, um de seus inventores, convocou este também rubro-negro. Na partilha das tarefas, coube-me a propaganda e a edição de um periódico para preparar uma futura ação eleitoral.
Nosso companheiro de Globo era o panamenho Homero Icaza Sanches, chefe de pesquisas da Rede e conhecido no meio, pela sua competência, como o “Bruxo”. Magaldi pediu ao Homero uma pesquisa junto ao colégio eleitoral do CRF – 3 mil associados – e havia, pela ordem, duas preocupações prioritárias:
1. a situação geral, financeira e administrativa;
2. o futebol.
Escolhido Márcio Braga como nosso candidato, criei e gravei um comercial com ele, abordando a preocupação maior. Carlinhos Niemeyer, o empresário do Canal 100, jornal cinematográfico exclusivo sobre futebol, foi o escolhido para a mensagem da segunda preocupação.
A pesquisa revelou um dado fundamental, pois se mil ou mais eleitores comparecessem, a FAF seria vencedora. Daí ninguém entender como um universo de apenas 3 mil pessoas podia envolver comerciais de TV e outdoors espalhados pela cidade. O case da campanha, que Roberto Marinho, também do time, fingia não ver e tinha apoio absoluto do diretor-geral Walter Clark, ganhou, a posteriori, muitas páginas da revista Propaganda. De repente, ser eleitor do Flamengo era um privilégio e votar uma ação irrecusável.
Eram 11 horas da manhã quando, no dia das eleições, Walter Clark e Magaldi, junto ao meu carro, estacionado na sede do Morro da Viúva, aguardavam as notícias. Cheguei e disse: “Podemos iniciar as comemorações, o milésimo eleitor, 87 anos, acaba de votar”. E, abrindo a porta do carro, indaguei:
– Champanhe, uísque ou vodca?
A vitória, acachapante, foi comemorada até de madrugada numa churrascaria da Zona Sul.
Ano seguinte, o Flamengo, com Walter Clark como vice de futebol, era campeão estadual com vitória nos dois turnos. Completou-se, depois, um tri- estadual, um campeonato brasileiro, um carioca, a Libertadores da América e, em 1981, no Japão, o Flamengo sagrava-se campeão mundial.
Magaldi, como vice social, criou o Baile Vermelho e Preto e a nação rubro-negra viveu muitas alegrias. Entre muitos fatos, restou-me a memória de um inesquecível, ocorrido duas semanas antes das eleições:
Peguei o Magaldi no corredor, mostrei-lhe um anúncio para a sua aprovação, ele disse que estava OK, esperou que meu colega levasse o anúncio de volta e sentenciou:
– Mario, se até o dia das eleições eu te pegar de novo fazendo algum trabalho para a Globo, eu te demito!
Inté.


*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial