Cyro Del Nero, um desses amigos/irmãos a quem me refiro dizendo que nos conhecemos na maternidade, sócio por duas vezes, antecessor de Hans Donner nas aberturas de novelas e programas da Rede Globo, cenógrafo internacional, hoje professor da cadeira na USP, mandou-me um e-mail que acho interessante divulgar na parte não pessoal. Quanto ao Paulo Coelho, citado pelo Cyro, já escrevi em outros veículos que, para o universo dos meus interesses, o hoje imortal morreu junto com o parceiro, Raul Seixas. Nada de inveja nisso, pois minha admiração pelo letrista que ele foi é imortal. Passo a escrita ao amigo Cyro:
“Um dos anjos mais desajeitados e cheios de delicadeza e doçura que eu conheci foi Raul Seixas. Ele e Paulo Coelho me entregaram uma fita gravada para que eu imaginasse e realizasse um número musical no Fantástico, do qual eu era o Diretor de Arte. Durante um mês trabalhei desenhando e montando as artes para GITA, que Raul havia gravado em parceria com Paulo Coelho. Coletei e adaptei para a gravação imagens de diversas épocas da história da pintura, surrealistas e/ou fantásticas, como as de Pieter Breughel, Hyeronimus Bosch, Max Ernst, Odilon Redon, Salvador Dali. E as montei fazendo diversas intervenções. Estas imagens eram o background gravado através da chroma-key, a chave que, inibindo um painel azul atrás do Raul, permitia que eu fundisse a imagem de uma outra câmera. O sistema era apenas usado pelo jornalismo e eu o desenvolvi no Fantástico. Os computadores ainda não haviam chegado: estamos no início dos anos 70, Manoel Carlos dirige o programa e Augusto César Vannucci dirige a linha de shows. Mas não bastavam as imagens ilustrativas. Eu tinha que vestir o Raul. Para tanto fui até a carpintaria da Globo e mandei cortar um cone de madeira com estrelas vazadas. Coloquei Raul atrás dessa forma para finalizar o número musical. Faz agora 30 anos. O GITA com Raul Seixas foi o primeiro videoclipe da televisão brasileira. O sucesso do número foi muito grande e eu me lembro do abraço comovido do Otto Lara Rezende. Boni pediu que o Fantástico tivesse a partir de então números musicais assim produzidos por outros diretores. Fiz em seguida diversos videoclipes com Sá e Guarabira, Tom Zé, o Ballet do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Clementina de Jesus e muitos mais. Mas a lembrança da figura gentil de Raul é inesquecível. Ele provava a todo o instante ser possível uma existência transcendendo as realidades menores.”
Talvez pela morte prematura do parceiro Raul, Paulo Coelho tenha preferido a estrada de Santiago de Compostela, caminho que este caminhante não teve a graça de desvendar. Mas, no passado, caminhei muito com Paulo:
“Você me pergunta
Aonde eu quero chegar
Se há tantos caminhos na vida
E pouca esperança no ar
E até a gaivota que voa
Já tem seu caminho no ar
……………………………………..
O caminho do risco é o sucesso
O do acaso é a sorte
O da dor é o amigo
O caminho da vida é a morte…”
Gosto não se discute, mas, para mim, Paulo Coelho morreu junto com o parceiro. Só não quero é que você diga que “eu sou a mosca que pousou em sua sopa”.
Inté.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores de “64 Para não esquecer” (Literalis).

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