1853 – Georges-Eugène Haussmann é comissionado para abrir grandes e arborizados boulevardes em Paris, transfigurando o centro histórico e preparando a cidade para a modernidade do novo século. Historiadores e intelectuais protestam, alegando que demolir casas onde um milhão de pessoas guardam suas memórias de vida é “enterrar hectares da história de Paris”.
1900 – Émile Zola sobe à segunda plataforma da recém inaugurada Torre Eiffel para fotografar os velhos quartiers e os novos boulevardes. As fotos mostrariam uma cidade luminosa, que se contrapõe à Paris dos cortiços insalubres e ruelas imundas de suas novelas.
1940 – Duas guerras mundiais depois, ao amanhecer de 28 de junho, Adolph Hitler circunda o Arco do Triunfo em sua Mercedes negra e segue para os Invalides, onde admira por longo tempo a tumba de Napoleão Bonaparte. Seu arquiteto favorito, Albert Speer, que estava a seu lado, diria, anos mais tarde, que Hitler ainda não decididira se ordenava ou não a destruição de Paris. Mas, se o fizesse, os Invalides e o Arco do Triunfo deveriam ser cuidadosamente poupados.
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Zola, Hitler e o barão Haussmann convivem na mesma galeria humana que Graham Robb faz desfilar em seu novo livro, “Parisienses: Uma História Aventurosa de Paris”. Quase uma declaração de amor à Cidade das Luzes, composta não por um turista ocasional, mas pelo autor de elogiadas biografias de Victor Hugo, Balzac e Rimbaud. “Parisienses…” é um mapeamento humano, talvez um novo “Em Busca do Tempo Perdido”, com aventurosos homens e mulheres que tentaram reinventar Paris.
De Napoleon III a Charles de Gaulle e do Barão Haussmann a Georges Pompidou, Robb transita por personagens igualmente famosos, mas com menor relevância na história da cidade, flagrando Juliete Greco e Miles Davies, namorando na Rive Gauche ou Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, em longuíssimas conversações filosóficas no Cafe de Flore.
Outros são desconhecidos, como Eugène François Vidocq, que durante seus 16 anos na Sûreté, colecionou mistérios da cidade, reunindo um arquivo secreto sobre milhares de pessoas. Acobertado por disfarces, frequentou círculos diplomáticos e a alta sociedade, ouvindo conversas sigilosas e espionando pessoas. E, muito antes que o Barão Haussmann iniciasse a derrubada, mapeou as catacumbas, cavernas e túneis do subsolo de Paris. Então, em 1843, Vidocq e seu arquivo confidencial desapareceram, como por encanto. Quando a polícia abriu seu túmulo no Père Lachaise, achou apenas o corpo de uma mulher desconhecida.
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Desde os tempos medievais, Paris foi elusiva e enigmática. Construída sobre pântanos, areia e argila, não possuía cemitérios e enterrava os mortos e seus pertences no subsolo. Os arquivos perdidos de Vidocq deveriam conter estórias e segredos, sepultados pela modernidade e que agora são meras interrogações, para pesquisadores e arqueólogos.
Em 1977, o historiador e jornalista Louis Chevalier assiste de seu quarto de hotel as obras do Pompidou Center e escreve um livrinho singular, “O Assassinato de Paris”, sobre a descaracterização urbana, lembrando que o falecido presidente Georges Pompidou considerava pequenos demais os pináculos de Notre-Dame e sonhava com “uma Paris de altas torres feitas de aço e vidro e museus com a aparência de refinarias de petróleo”.
O historiador reverencia o minucioso trabalho de Charles Marville, fotógrafo oficial do Museu do Louvre, que fez o levantamento fotográfico dos quartiers parisienses, antes do que chamava de “haussmanization”: “Foi uma arqueologia às avessas – primeiro as ruinas, depois a cidade moderna”.
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Esta Paris desvanecida está reconstruida no livro de Louis Chevalier, replicando o que as fotos sépia e preto-e-branco de Charles Marville, haviam feito, 100 anos antes. Chevalier conclui sua reconstrução com um anti-obituário: “Por si só, a História iria esquecer tudo, mas, felizmente, existem os livros, carregados de emoções, repletos de imagens e palavras e construídos com a areia e o cal da linguagem. Paris é uma cidade impossível de ser assassinada”.

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