“Tanto fez para fugir do poeta que o poema quebrou o pé.”
Fechou o livro e ficou pensando na frase. Um aforismo?
O aforismo – pensou – pode ir além do seu próprio conceito.
“O verso é uma vitória sobre os limites da linguagem.” Lembrando desse aforismo de Drummond, voltou-se para a frase que acabara de ler.
O humor do poema tentando fugir escondia (ou não?) a angústia da criação, o artista, insatisfeito, tentando dar forma a algo que – mentalmente – já está pronto?
Um ruído quase imperceptível colocou-o atento.
Vasculhou, com os olhos, o escritório. Nada.
Ia reabrir o livro quando o ruído fez-se pouco mais audível.
Levantou-se.
Logo no primeiro passo, sobre um papel em branco, o motivo da quebra daquele silêncio.
Com os olhos, acompanhava, imóvel, o elemento intruso.
Sentiu, mais uma vez, e como sempre, o desafio.
Uma única paixão não o carregara para a literatura.
Era biólogo, vocação que surgira – achava – quando pouco mais que bebê, fascinava-se pelo vai-vem das formigas.
Vegetal ou animal, esse o universo que resolvera decifrar.
Da faculdade para as pesquisas, das pesquisas para a publicação de livros, seu universo era a vida.
A literatura era o repouso do cientista.
Enquanto seus olhos acompanhavam o movimento inusitado, perguntou-se, como sempre, o que havia no inconsciente coletivo que elegera aquela coisa como o gerador de pânico?
Não era o seu caso, seu problema era o eterno respeito à vida.
Contrariado, pisou na barata que descera até o chão.
Meneando a cabeça, contrafeito, voltou para a leitura, curioso para saber se o poeta conseguira caçar o poema.

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