Sempre fiquei intrigado com algumas músicas do cancioneiro popular, especialmente com as canções e cirandas transmitidas de geração para geração.
Avós, tias e os meios de comunicação passavam as canções sem exercer um mínimo de distanciamento crítico, ou esboçar alguma reação diante de conteúdos metafísicos de algumas delas. Jamais refletiram sobre o significado que estavam sendo transmitidos para nós, as crianças.
A canção lúdica “Escravos de Jó” é emblemática. O que temos ali? O mencionado Jó, certamente um senhor de engenho, e seus escravos que jogavam Caxangá, suponho ser um jogo clandestino entre os negros da época. Outro personagem da canção era um tal de Zé Pereira, ao que tudo indica, um olheiro, uma espécie de fiscal de Jó, pois a letra da canção o menciona: “Deixa o Zé Pereira que se vá”. Imagino que o jogo era interrompido com a chegada do Zé e todos, em meio a dissimulações, aguardavam que se retirasse para jogatina continuar. Cantava-se “Tira, bota, tira, bota”. Afinal, que jogo era este? A gente cantava inocentemente esse refrão. Alguma alusão picaresca? Talvez não, seria óbvio demais. E a próxima sentença da letra é uma jóia de coerência: “Guerreiros com guerreiros fazem zig, zig zá! ” Que guerreiros? De onde eles surgiram? Porque faziam zig, zig, zá? O que consistia exatamente esta prática? Alguma estratégia evasiva para fugir do inimigo? São perguntas que atravessam os séculos e nada indica que a moderna sociologia ou a psicanálise possam oferecer respostas razoáveis.
Quando era garoto soube de um vizinho, intelectual refinado, que saiu de casa em camisa de força após ouvir o ” Bigorrilho”: ” Lá em casa tinha um Bigorilho/ Bigorrilho fazia mingau/ Bigorrilho foi quem me ensinou, a tirar o cavaco do pau “
Vejamos: há uma inequívoca mensagem, segundo a qual, este senhor, o Bigorrilho, ensinava o autor “a tirar o cavaco do pau”. Ou seja, sacanagem, pura sacanagem. E logo concluia com uma pérola, quase um aforismo: ” Trepantonio siripa mingau eu também sei tirar o cavaco do pau! “. O subtexto salta aos olhos, não quero ser previsível nem vulgar, mas é exatamento isto que você está pensando.
Já na canção ” A perereca da vizinha”, entronizada como referência cultural de várias gerações, é possível fazer múltiplas abordagens associativas e inevitáveis quando se escuta a sugestão de sua letra ambivalente: “A perereca da vizinha está presa na gaiola, xô perereca, xô perereca.” O vizinho, receoso de algum deslize de conduta da esposa, a teria mantido em cárcere privado, com sua respectiva perereca? No entanto, se a premissa estiver correta, de quem é a voz que tenta afugentar a perereca dali? ” Xô perereca, xô perereca “. Seria este refrão, na verdade, uma palavra de ordem de grupos homossexuais que agiam na clandestinidade? ” Xô perereca, xô perereca.” O mistério prevalece, nunca saberemos.
Com 5 ou 6 anos de idade eu cantava, na mais doce ingenuidade, o ” Zé Corneteiro”. Não não tinha a menor idéia que estava fazendo apologia à prostituição, e à uma da mais sorrateiras práticas de favores sexuais, em nome do alpinismo social. Vejamos o que diz o autor: ” Zé Corneteiro casado com o peixão*/ levou sua mulher pra visitar o batalhão/ no outro dia por ordem do major, o Zé foi provido a carneteiro- mor”. Quer dizer, o corneteiro inescrupuloso botou a sua mulher na contrapartida para ser promovido, não resta a menor dúvida. Safado.
Era inevitável que a geração que se criou ouvindo estas mensagens sublimes fosse buscar as respostas em Nietzche, em Sartre e, especialmente,
* Gíria popular da época para designar a mulher do tipo “violão”.

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