Quando nós que nos amávamos tanto éramos jovens, era evidente que nossos pais repetiam condutas, moralidade e atitudes autoritárias transmitidas pelos seus pais, que reproduziram na íntegra o modo dos seus avós. Alguns dos meus amigos ainda tratam seus pais de senhor e senhora. A distância entre pais e filhos era abissal. Este fato fica mais evidente quando se percebe que a minha geração criou a mais ruidosa e profunda transformação cultural, social e sexual que se teve notícia na história moderna, e depois trouxe a tecnológica, que alterou de forma dramática o curso da vida em cima do planeta.
Os nossos pais não notaram nada, tamanho o pouco caso que faziam de nós, as “crianças” (criança e cachorro era tudo a mesma coisa). Eles continuaram suas vidas, assim como continuaram nos olhando de cima para baixo. Assim:
– Mas eu ganhei o prêmio Nobel de Ciência, eu fui e voltei da lua, eu desvendei a sequência do código genético, eu descobri a cura do câncer, meu Deus!!!
– Não interessa guri, cala a boca e vai para o teu quarto.
É bastante curioso quando se percebe que o jovem contemporâneo vem usufruindo o legado duramente conquistado por nós, à custa de muita droga, muito sexo e muito rock and roll, e não manifesta uma gota de gratidão. Até hoje lembro do entorse na coluna que ganhei quando tentava uma nova posição do Kama Sutra. E tudo para que? Para ser olhado pelos garotos como se a gente fosse uma lâmina de vidro, bem limpinha. Já aconteceu, por exemplo, de uma garota não trocar de calçada e, para o meu espanto, caminhar na minha direção. Será que carrego algum fetiche visual que atraiu esta linda jovem?, pensei, entre confuso e animadinho. A garota seguiu tranquila caminhando na minha direção e passou através mim como se eu fosse uma alma penada, tamanha a minha invisibilidade ao olhar desatento da geração criada nos subterrâneos dos mangás.
Ei, rapazes com cinquenta e tantos, até um pouco mais, vidros é que sois. Sabe o que mais vocês são? Vocês são entes de passagem. Portanto, cumpram com dignidade o papel silencioso e tácito de, nestes tempos de cólera, transmitir todos os conhecimentos aprendidos, sobre todos os mecanismos de como tudo funciona, de como a sociedade prossegue e se aperfeiçoa, e de como a vida pode ser melhor, se os novos adultos perceberem o quanto de humanidade, liberdade e afeto a gente conquistou. Claro que exageramos um pouco no começo, assim como os garotos e garotas estão exagerando agora. É da vida e, aleluia, a vida gosta quando os seus filhos fazem arte. Sem isso seria o que, a rotina de um cartório? Que la nave vá, alea jacta est, como se diz vulgarmente. E que os chatos fiquem no porto.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial