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O Cristo envergonhado

Pretendia contar hoje a minha travessia do Rio São Francisco, em 1982, após haver desejado fazê-lo por décadas. O assalto de um bailarino russo, …

Pretendia contar hoje a minha travessia do Rio São Francisco, em 1982, após haver desejado fazê-lo por décadas.

O assalto de um bailarino russo, dia 19, semanas depois do assalto de uma harpista, também russa, puxou-me para um assunto recente  e – infeliz de nós – muito atual há muito.

Tenho acompanhado, através dos veículos de comunicação, o esforço brasileiro, com ênfase no Rio, para eleger o Cristo do Corcovado como uma das sete novas maravilhas do mundo.

Tratando-se de eleição internacional, via e-mail e possuindo o Brasil 40 milhões de computadores, não é improvável o êxito da campanha.

Desde a sua inauguração, por Getúlio Vargas, em 12 de outubro de 1931, o monumento do artista plástico Carlos Oswald, pelas suas proporções adequadas aos  mais de 700 metros de altura onde foi instalado, tornou-se um ícone da cidade e do país, um ímã de turismo que recebe, por dia, cerca de mil brasileiros e estrangeiros.

Em condições normais, nada contra. Na situação atual, não me sinto à vontade para participar de uma votação que, se vitoriosa, será mais um ponto a favor para a indústria do turismo no Rio. O que seria ótimo para a economia da cidade entra em confronto com a minha condição ética.

O Grande Rio está dominado pelo crime organizado, e – desde há muito – o tráfico de drogas é apenas um dos componentes do caos absoluto nesta cidade sitiada. Balas perdidas – as assassinas anônimas –, assaltos a mão armada e assaltos com homicídio são o trivial simples de um cardápio onde as violências dos filmes de faroeste e das gangues de Chicago são minimizadas pelos mais hediondos crimes, como, por exemplo, o assassinato de um menino de seis anos arrastado por um automóvel.

Nesta cidade sitiada, sofrem os moradores e não se vê um único gesto radical para salvar a população através de ações cirúrgicas e duradouras. Em vez de amputar o crime, as autoridades brincam de bandido e mocinho, para a glória do crime que, há décadas, é o vencedor. Vive-se numa cidade onde a “polícia mineira” mata o criminoso e a polícia oficial quase sempre nem acha os criminosos. 

Fazendo um exame de consciência, não consigo efetuar o gesto que, por mais remoto, possa gerar mais uma vítima do crime. Nesse exame, concluí que, com as informações que tenho sobre esta cidade, jamais eu viria como  um turista neste alçapão do crime.

Aqui, o assalto é tão trivial que dois cineastas estão preparando um filme apenas com relatos de pessoas assaltadas. O tema é “como foi seu primeiro assalto?”, que, infelizmente, não pode contar com os testemunhos dos não-sobreviventes….

Se você quiser participar desse trabalho de Karen Sztajnberg e Richard Clement Haber, o e-mail é [email protected].

Não vou contar a minha estréia, pois foi muito rápida, simples, custou pouco mais que alguns trocados e não deixou trauma algum. Foi um assalto muito trivial.

Fica difícil compartilhar desse esforço “cristão” e atrair gente para o Rio num país onde o presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, a respeito do “apagão”, confessa-se tranqüilo: “porque os aviões estão no solo e todo mundo sabe que a melhor proteção para um avião não cair é ele não decolar”.

Já a ex-sexóloga Marta Suplicy inverteu ações ao aconselhar “relaxe e goze”, pois é claro que prefiro só relaxar depois de gozar. Como ela é a ministra do Turismo, acho melhor que carimbe o passaporte, relaxe, goze e vá para a… Deixa pra lá.

Inté.

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Autor

Mario de Almeida

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