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O enigma Penélope

“Segredos, sílices e silentes, repousam nos palácios escuros de nossos corações”.

James Joyce.

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Alguns episódios da literatura, mesmo os intensamente escrutinados e virados ao avesso, ainda preservam seus enigmas e segredos, como o icônico monólogo de Molly Bloom das últimas páginas do Ulysses de James Joyce. Chamado de Penélope, o episódio se divide em oito intermináveis frases, sem ponto, vírgula ou acentuação    – um desafio para o leitor habituado à típica linguagem literária.

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Como os críticos joiceanos interpretaram os enigmas contidos em Ulysses? Não existe unanimidade quando se trata de James Joyce, mas parece evidente que ele desenvolveu um espelhamento da obra clássica de Homero, ao fazer o protagonista Leopoldo Bloom se portar como um herói helênico moderno, vivendo um   dia comum, com reflexões sobre vida, amor e identidade.                                                       No episódio Penélope, Joyce elaborou uma intrincada teia, usando de repetições rítmicas e associações livres para expor os pensamentos ocultos e secretos de Molly,  mulher de Leopoldo Bloom. Misturando e confundindo   sentimentos de sensualidade, remorso, culpa, medo e aceitação de vida. Tudo acontece no quarto do casal, durante a madrugada de 17 de junho de 1904, quando Molly reflete sobre casamento, adultério, amor e morte. 

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Em definição simplista e muito repetida, Ulysses não passa da história de um homem comum, narrada sob  um véu de mistério e questionamentos. No entanto, se consagrou como o primeiro romance da literatura moderna, ao transformar a forma de contar estórias além das tradicionais narrativas lineares. Em 1924, anos após o lançamento da primeira edição inglesa, um grupo de leitores em Dublin engendra uma homenagem a James Joyce, então quase cego e com limitações físicas. Surge o Bloomsday, que se repete desde então, a cada 16 de junho. 

Com o tempo, o evento cresce, ao ponto de disputar com o Saint Patrick’s Day a festividade mais concorrida na Irlanda. O Bloomsday acompanha os 18 episódios de Ulysses, incluindo o monólogo Penélope, que é recitado nos locais originais por atores e atrizes vestidos com trajes edwardianos. Em Dublin, o evento começa às 8 horas da manhã na Martello Tower, passa pela escola de Stephen Dedalus, pela praia de Sandymount, redação do Freeman’s Journal e pelo pub Davy Byrne’s. Segue até o bar do Ormond Hotel, visita um bordel em Nighttown e retorna ao ponto de partida, na Eccles Street.

Décadas antes dos modernos movimentos feministas e da reafirmação das virtudes da mulher, o monólogo de Molly já nos propunha a exaltação da beleza do corpo feminino. Ele evoca imagens tradicionalmente femininas, como o mar e as flores, revelando ao mesmo tempo um lado semiótico, ao enfatizar a identificação com a mãe,   o que sugere incapacidade de se identificar com o pai. Por essa teoria, o monólogo usa um ritmo cíclico, que começa e termina com a palavra sim. Para os críticos, é uma reverência à subjetividade feminina.      

Outra corrente aponta para menções bíblicas, como a repetição das denominações de Maria, mãe de Jesus Cristo: Ave Maria, Maria Santíssima, Virgem Abençoada. Ainda, que o prenome de Molly, Marion, é a versão ancestral do nome Maria. E quando sugere duplicidade moral na personagem, James Joyce anota uma crítica aos valores patriarcais tradicionais sobre a mulher. Mas há contradições, nada surpreendente em James Joyce. Mesmo (ou apesar) de Molly ser infiel ao marido, o autor prefere referir-se a ela como uma madona clássica. E a faz recitar louvações à Mãe Natureza, em uma ode pastoral, quase religiosa:

” Adoro flores

adoraria ter a casa toda nadando em rosas

meu Deus do céu

não há nada no mundo como a natureza,

as montanhas selvagens

as montanhas selvagens, depois o mar as ondas em tropel

e depois a beleza do campo as plantações de aveia e trigo

os animais pra cá pra lá tão bonitos.

    Deve fazer bem à alma isso ver os rios os lagos e as flores e formas de todos os jeitos e cheiros

e cores saltando de tudo até do fosso

    primaveras e violetas é a natureza…”.

 

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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One Comment

Antônio Goulart

Caro Oliveira, li o Ulysses há muitos anos, mas só agora encontro um texto inteligente revelando detalhes desta passagem do romance de Joyce. Abriu um novo horizonte para este modesto leitor. Cumprimentos.

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